quinta-feira, dezembro 28, 2006

bom dia, lua
boa noite, sol
tarde de estrelas
anzóis de ares
do mar, flanares
gotas de seca
cupim de alma
entalhe de calma
em madeira sem lei
fruto permitido
pro pecado absolvido
grilhão em testa de rei
salve, excelentíssimo vadio
arrasta-pé, sangue azul não quisto
bandeira branca pra tempos de paz
decadência cintilante
fortaleza de origami
fragilidade a prova de mas

sábado, dezembro 09, 2006

sábado, dezembro 02, 2006

douto em letras clandestinas
estirado à calçada, um vígil mendigo
é o oráculo de katmandu.
com a caneta-tinteiro, ele arranha em papiro
o registro de cancros que não cicatrizam
de porres, ressacas que vê pervagar.
do inventário lavrado à nanquim invisível
de sendas raptadas do absoluto sigilo
na folha de rosto, ele anota os vícios
de uma santa de barro, disposta a quebrar.
resmunga preces de fervoroso desatino
a desnuda do véu, imaculado vestido
só para vê-la em carne, maldita e fugaz.

terça-feira, novembro 21, 2006

Sabedoria Materna

A esperança é a última que morre...

mas a razão é a primeira que chega.

domingo, novembro 12, 2006

Para me fazer de barata
não é necessário que me esmague com os pés.
Basta colocar-me no prego a preço de banana.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Homework: Interpretação de texto

A VIDA (Henrique Lagden)

Só o Passado é real; o futuro, fantasma
Com que a mente dá forma à coisa inexistente.
E o minuto, que voa, e chamamos Presente
Já ficou para trás tão depressa entusiasma.
Toda a vaga ilusão que a humana ambição plasma
E supõe realizar hoje mesmo, fremente,
Lembra a sorte cruel da gota intercadente
Que mal tomba e já abriga o infusório e o miasma.
Toda vida é um Passado. O Presente subsiste
Como ideal concepção de um desejo, que insiste
Nesta glória de abrir ao sonho novas portas.
Mas a vida, em si mesma, a existência, afinal,
No Presente, fugaz, falaciosa, irreal,
Essa existe, direi, mas são as coisas mortas.

terça-feira, novembro 07, 2006

Manual Esboço de Gente

A gente é uma coisa meio redonda, assim
com cinco traços embaixo
assim e assim, assim, assim e assim.



PS: Sacou???

segunda-feira, outubro 30, 2006

jantaria
tua
nua
crua carne
antropoTUAfagia

Entre a felicidade e o dever
deveria a ela.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Disse-me que morava em uma fazenda junto da irmã e do cunhado. Eram, no todo, dezesseis. Filhos de pai, oito de mãe. Quando foram crescendo, a mão paterna conduziu cada um à estrada. “Não tem arado pra todos” – foi o que ouviu. São só vinte e cinco mil pés de café, não muito além de cem sacas por estação.
Este ano, contou-me, uma infestação de cigarra atacou a lavoura e devastou a plantação. “O vidro de veneno custa seiscentos reais e não couraça nem mesmo mil pés”. Há duas colheitas, quase que se foi para Campinas, “tentar a sorte em uma capital”. Mas a irmã e a mãe pediram que ficasse a ajudar o cunhado com o cafezal.
“Essa noite, vou para a cavalgada de Nossa Senhora, conduzir a imagem da santa desde Fama até a igreja da Aparecida. Aquela perto do cemitério”, explicou-me. “É uma comitiva de cavalos que sai às três horas da manhã e apeia às sete, quase na hora da Missa dos Romeiros”.
Apontou-me Serrania, logo ali naquelas casas brancas, “tá vendo?”. Falou que seguiria pela esquerda e que eu seguisse reto. Perto dos eucaliptos, caso fosse pela direita, estaria na rodovia de retorno. À esquerda, na cidade indicada.
Meio sem jeito estendeu-me a mão. “Vai com Deus, dona”. Aceitei de bom grado aquele aperto desconhecido. “Boa sorte, Tadeu”, depois o vi tocar pela estrada de terra sobre uma bicicleta que ele possuía há bem mais de quinze anos. “Careca, mas nunca furou um pneu”, gabara-se mais cedo.
E foi-se embora assim, com sua marcha devagar naquele caminho de terra batida. Deixou-me como recomendação o cuidado com as costeletas do caminho, “já vi muita gente pendida nesses buracos de chuva”.
Semi-homônimo de santo das causas difíceis e desesperadas, parecia me instruir do que se sucederia pela frente. Em meu caminho de volta, tombei numa destas valas e capotei. Desobediente à providência divina, luxei o cotovelo e logrei a penitência de carregar no braço direito cerca de três quilos de gesso por um mês. Flagelo que não de fé, me foi impugnado pelo excesso de desatenção.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Ávida voz
Ávida a sós
A vida pós
MORTEM

sábado, setembro 23, 2006

Trying to let the music play...

A Cruz E A Espada

Letra: Paulo Ricardo e Luiz Schiavon
Voz: Renato Russo e Paulo Ricardo

Havia um tempo, em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu
Agora eu vejo, aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo do meu desejo
Se perdeu de mim
E agora eu ando
Correndo tanto
Procurando aquele novo lugar
Aquela festa
O que me resta
Encontrar alguém legal pra ficar

Agora eu vejo, aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo do meu desejo
Se perdeu de mim (2x)

E agora é tarde
Acordo tarde
Do meu lado alguém que eu nem conhecia
Outra criança adulterada
Pelos anos que a pintura escondia

Agora eu vejo, aquele beijo
Era o fim, o fim
Era o começo do meu desejo
Se perdeu de mim (2x)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Pro fundador de Katmandu

Não faz frio em Katmandu.
Nem venta.
Em Katmandu
também não faz calor.
Nunca é inverno
nem verão.
Cá em Katmandu
não nascem flores
porque não chove.
E não risca a terra, a seca
porque não é sertão
e o sol, de fato, não existe.
Katmandu não está a um passo.
Katmandu já é aqui.
Tão grande de se perder
Miúdo de se sumir.

Na epopéia não-escrita de Katmandu
havia um relógio
roubado das horas.
As horas ficaram
e, para Katmandu, só a carcaça foi.
Sobraram os ponteiros
que apontam precisamente
o tempo que Katmandu não tem.

No meio do caminho para Katmandu
também não tinha uma pedra
porque não se encontram caminhos
que passem por ali.
Não havia casa muito engraçada,
sem teto, sem nada
ou trovadores e poetas que cantassem
o espaço que Katmandu não tem.

Sentada sobre os longos cabelos
castanhos-vermelhos de riscos-calmarias
sua única habitante
desenha no ar
sonhos que o vento, por não existir
também não carrega.
Da garota de Katmandu
sem vestes e sem nudez
levaram o espelho para se olhar.
Pequena desprovida de sombras
às vezes, acha difícil de se acreditar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Porque quiseste
uma noite
então, eu fui
Uma noite
vejas bem
te concedi
Só uma noite
que em breve
se conclui
Toda uma noite
foi o que te prometi
Não mais que a noite
me interessa
o tempo flui
E nesta noite
o que disseres
serei para ti
Basta uma noite
em que poderás sentir
Vestido o corpo
os olhos instam a te despir
Afora a noite
rompe a luz
mas que há de vir?
Dessa noite
que ora expira
já me esqueci
Era uma noite
que, de tão noite,
amanheci
E um raiar
que, de tão dia,
escureci.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Quem te leva?
Quem te lesa?
Quem te lega?

Quem te nega?
Quem te pega?
Quem te cega?
Quente cela
      Fria tela
              sela
              ser.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Rua do Catete - 18:51h

Um homem me aborda delicadamente e diz:
- Aceita a palavra de Deus?
Respondo, sem pensar:
- Tudo bem, desde que Ele seja rápido.

Moral da história: isso é motivo de piada?

Muuuuito a matutar...

quarta-feira, agosto 23, 2006

Um pomar sem frutas frescas
ao alcance das mãos
A avó grita
Que é das laranjas para compotas?
Laranjas? Como?
Os pomares de hoje só nos trazem
ocres, cinzas e marrons.

terça-feira, agosto 22, 2006

Amparo:
nem reparo
tampouco n'alma

sábado, agosto 19, 2006

Travessia transversa
atravessa
o avesso
e regressa ao mesmo
limiar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Jaz aqui a presidência
do Clube das Compulsivas
Roedoras de Unha
Devoradoras Noturnas
Individualistas por Opção.
Aspirantes à Suicida
Viciadas em Cafeína
e com tendências masoquistas.
Vagas abertas à subscrição.

domingo, agosto 13, 2006

Nem adianta me gritar de perto
Autopiedade fez juramento com o amor!
se um quê de dor não sente
quem mais se apraz na renúncia do ser
à conquista que o motivou.
Mas pode me assoprar de longe
das virtudes egoístas do bem amar
Asteia o troféu da posse, pois se desiste
prazer existe em se flagelar.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Autocredora sim: devo e não nego.
Empresto-me a taxas altíssimas
indexadas todas as manhãs.
Antes mesmo de dormir
assino-me uma promissória para sonhar
parceladamente em 6X s/ juros.
Um dia, ainda me cobro em praça pública.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Na cidade deserta de si, não ande
pelas ruas principais.
Tome o atalho
vazio
Siga as vielas
sombrias
À direita tem um cabaré lotado.
Deixe esmolas na porta.
Sê desabrigo se não podes ser cais.

domingo, agosto 06, 2006

Duo-versões

Sois
Sóis
que apago como a guimba de um cigarro

ou

Soul:
Sou sim
Sol não

sexta-feira, agosto 04, 2006

(...) desarmar à força é complicado porque pressupõe uma operação terrestre. E uma reação a uma invasão (...) é difícil porque a história recente mostrou que você não consegue erradicar totalmente uma guerrilha popular. Se morre um em combate, dez outros nascem no mesmo local. Além do que, estaria-se enfrentando uma cultura que acha que o sacrifício em combate é uma forma gloriosa de morrer. O medo da morte não é um fato dissuasivo." (Carlos Edeé em entrevista ao jornal O Globo, 04/08/2006, pg. 33)

Nascer e morrer; se possível, neste meio tempo, viver. Duas soberanas certezas virguladas por uma hipótese insondável já que, paradoxalmente, o efetivo viver só se completa com o findar dos dias de cada um. No sentido mais amplo que esta palavra possa abranger na contemporaneidade, ela se relaciona diretamente às teorias levantadas pelos filósofos contratualistas ao longo dos séculos passados, na qual somente com a existência de um pacto social a sobrevida estaria seguramente garantida.
No excerto citado acima da entrevista de Carlos Edeé, brasileiro filho de uma tradicional família libanesa, a quebra da aliança social é explícita, uma vez que lida-se hoje com forças atuantes multipolares. Não se pretende afirmar aqui que tenha ocorrido sempre na história uma coalizão pacífica de interesses, mas estes ao menos se mantinham arrimados pelo princípio contratual da preservação da própria vida.
Não sei ao certo em que ponto tal premissa deixou de ser a cerne do comportamento em sociedade; evidência é que deixou. As palavras de Edeé, aplicadas pelo mesmo à atual guerra entre o exército xiita Hezbollah e Israel, são uma análise evidente da conjuntura mundial em que o viver é o menor dos direitos naturais do ser humano a ser levado em consideração.
Por analogia, a sentença de Carlos Edeé (devidamente editada e omitindo, conforme indicam os parênteses, somente expressões de caráter qualitativo sem, entretanto, comprometer o significado geral da frase), caberia bem ao julgamento da evolução do crime organizado e da violência em território brasileiro, no que se refere às ações de determinados grupos civis constituídos.
A antropóloga Alba Zaluar, uma das mais conhecidas pesquisadoras da violência urbana no Brasil, já havia discorrido sobre a situação do crime organizado no país. Em seu livro “A Máquina e a Revolta”, além de um estudo aprofundado das relações sociais no tráfico de drogas brasileiro, Alba traçou um perfil da constituição não legitimada do poderio destes grupos, ancorados na troca constante de seus líderes. O repasse do comando, segundo a antropóloga, é determinado pelo poder de fogo e de coerção imposto pelo sucessor, ao qual acrescenta-se uma imagem romântica do bandido defensor das classes (sobrepujada nos últimos anos) e à pronta substituição do indivíduo abatido em campo pelo exército de reserva.
Assim, o contrato social tal qual ele foi teorizado precisa, nas sensatas palavras de Carlos Eideé, deixar de contar com o fator dissuasivo desde que, neste contexto, viver é somente o atalho percorrido entre os dois extremos. Enquanto este atalho não se fizer caminho, o viver será indefinidamente uma das pedras no trajeto que, em vez de construção, tem como destino o arremesso.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Busco refúgio naquele que nem é o meu lugar.
Diz que carência tem espaço e ela é do tamanho exato dos seus braços.
E, ai!... Como é dorida!
Minha cabeça no seu peito amparada foi um delongado beijo de adeus.
Tardio, mas não falhou o encontro à fronte.
Ecos tão palpáveis quanto a sua voz.
Resquício que é destemperança minha...

domingo, julho 30, 2006

Louras, morenas, ruivas e mulatas, brancas, bronzeadas, peles amendoadas. Casadas, solteiras, separadas, traídas e muito amadas. Virgens, prostitutas e também aquelas que só se entregam a alguns; feias, bonitas, gostosas e afins. Altonas, baixinhas, magras e bem gordinhas, sem nunca esquecer daquelas a quem só excede um pneuzinho a mais. Tranqüilas, nervosas, de TPM, sãs e dopadas. Sonsas, maliciosas, dissimuladas, quisera sinceras, bondosas e acomodadas. Manhosas, dóceis, pacíficas, guerreiras eternas de uma luta não declarada. Trabalhadoras, vagabundas, de pernas pro ar. Senhoras de casa, rainhas do lar, empreiteiras do dia desde que nascem; pousadas inabaláveis da noite porque cimentadas no sofrimento. Tanto mais são as mulheres, musas amiúde imortalizadas ao longo dos tempos e que, se colhem pétalas no resvalar das horas, é que de espinhos são os ponteiros de suas estações.
Sobre um olhar dedicado a elas (direi nós, já que crítica primeira da impessoalidade), posso citar duas excelentes e imperdíveis atrações no Rio de Janeiro que estão em cartaz. “Cora Coralina”, espetáculo teatral apresentado no CCJF (Centro Cultural de Justiça Federal), trata da vida da poetisa que empresta nome à peça mas vai muito, muito além. Ao biografar Cora, as três protagonistas falam do cotidiano, do deslocamento, do medo e da criação derivante daquele repertório navalhado na carne. Literalmente a arte que imita a vida quando, na verdade, é no decorrer da vida que se faz a arte.
“Di Cavalcanti”, nas recém-estreadas galerias da Caixa Cultural também trata do universo feminino ainda que se proponha, em princípio, a se desvincular dele. O artista, que ficou famoso por suas mulatas boazudas recebeu da curadoria (Denise Mattar, a mesma que produziu e curou a mostra “Mary Vieira - O Tempo do Movimento”) uma roupagem nova e extremamente interessante. Êpa lá, as negras aparecem sim, tanto quanto a mulher do peixeiro, a de semblante aristocrático, a menina, a moça de cabelos de mel, etc, etc e tal. A exposição inclui, ainda, uma área reservada especialmente às paisagens de Paquetá e da cidade do Rio de Janeiro, lugar em que Di Cavalcanti nasceu e enalteceu a vida toda.
Na paleta do pintor, curvilíneas na forma, paisagem e mulher se fundem em cor, graça e movimento. Se não se prendeu a uma nem à outra, é porque, às linhas sinuosas, Di Cavalcanti foi mais fiel e mesmo sem o feminino retratado, este se encontra em quaisquer de seus quadros, quando quer que um riscado ondulatório esteja presente. Nas vielas labirínticas, no samba dos carnavalescos mascarados, nos fragmentos dançarinos unidos pela gafieira, no oceano que vai e vém na praia, no festejo de São João e em outros temas abrangidos pelo pincel, o artista serpenteou o traçado como o melhor dos remelexos da mulata.
Contraponto ao requebrado de Di Cavalcanti, os olhos melancólicos de seus personagens fitam perdidos a área que escapa à moldura, impressão que, nas paisagens, ganha ares de nostalgia. Dentro do requadro parecem atentos ao nada, pensamento longínquo de quem até deseja, mas se descobre incapaz de se perder. Tal reflexão me lembrou alguns trechos que li recentemente e que abaixo transcrevo como desfecho, acaso como perdição.

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? (...)
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. (...) A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? Estarei mais livre?
Não. (...)
(...) havia aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa.”
Clarisse Lispector, A Paixão Segundo G.H.

sábado, julho 29, 2006

Só espero a página passar
porque quando ela vira, eu começo.
Uma história sem título
dejá-vu de poemas antigos
que reescrevo sem cessar.

sexta-feira, julho 14, 2006

Se capacho na porta,
limpe seus pés antes mesmo de entrar!
Chafurda, já me basta a minha.
Asseio, não o encontrei em outrém.

terça-feira, julho 11, 2006

Qual não vejo e que me dói
trançado invísivel do passado
e que, teu pertence, flagela meu coração.
Porção da qual não te posso dispensar,
fatia que devora minha razão.
Dose diária de veneno salivar
que lambo nos dedos a cada capítulo desvelado da tua história.

domingo, julho 09, 2006

"Um pouco de raiva não me fará mal.
Há frutos que apodrecem
por excesso de doçura."
(Carpinejar)

sexta-feira, julho 07, 2006

Ruína da gérbera seria nascer entre margaridas
Colegas na forma,
rivais na composição.
Que tal daninha alastrada pelo campo,
feliz é a margarida
que da nobreza do vaso desenclausura suas raízes.

segunda-feira, julho 03, 2006

Quer diversão? Faça doer! (Arde, mas...pimenta nos próprios olhos também é refresco)

Não sei se já contei, mas meu pai é um dos primeiros e únicos especialistas em Ortopedista e Traumatologista da minha cidade. Até aí tudo bem, não tivesse isso deturpado a minha noção de segurança pessoal e obediência aos limites não procedentes do meu próprio querer.
Lá em casa, alguns casos clínicos eram discutidos na mesa da cozinha, durante o almoço em família. Eu mordia uma coxa de galinha enquanto meu pai contava que acabara de amputar uma perna, cortava um bife escutando descritivas de uma incisão, mastigava o espaguete com um caso de verminose do pronto-socorro. Quando você convive com alguém que participa deste mundo, a desgraça alheia vira a piada do dia e confesso sem pudores que até hoje o humor negro é parte da minha diversão.
Entre a gente mesmo, quase nenhum destes infortúnios acontecia. Minha irmã quebrou um braço, minha mãe tem tendinite no pulso e eu, numa ocasião, virei o pé sete vezes em um mesmo mês. Ficou inchado, roxeou um pouco, mas como eu ouvia tanta história esdrúxula, até me senti um pouquinho mais normal (apesar de sete ser número de mentiroso, é a mais pura verdade!).
Além disso, para piorar a situação, nos meus primeiros seis anos de vida morei em uma casa de frente ao hospital. Qualquer coisa era só atravessar a rua e ser atendida, até porque minha mãe, esposa de médico, já era conhecida por toda a staff do lugar. Foi assim que quando eu bebi um vidro inteirinho de xampu Johnson e Johnson, menos de dez minutos depois já contava com uma equipe de pediatras e enfermeiras me observando soluçar bolhinhas de sabão pela boca enquanto preparavam a lavagem estomacal.
Hoje em dia, fiquem sossegados, eu não bebo mais xampu, nem mordo bolas de Natal (sim, eu mordi uma daquelas de vidro e tive câimbra no maxilar de tanto ficar com a boca aberta para que tirassem os caquinhos). Agora, quando tenho que estar meus limites, eu assim faço em campo muito menos físico e, gostaria eu, também menos perigoso.
“Cachê”, por exemplo, o já não tão novo filme de Michael Haneke, é um destes incidentes de percurso que fazem a gente feliz de chutar a tal da segurança pessoal. No filme, que é uma espécie de thriller protagonizado por Daniel Auteuil e Juliette Binoche, um casal recebe fitas embrulhadas em macabros desenhos infantis que têm como conteúdo extratos contínuos de suas vidas. Filmados aparente (mas não conclusivamente) como vingança por um filho de argelinos que quase fora adotado pelos pais do personagem de Auteuil, os vídeos vão aumentando gradativamente sua inserção na intimidade da família e abrem campo para discussões relacionadas a temas como os embates sociais (França X Argélia), o voyerismo, a interação entre espectador e mídia, a culpa, etc.
O primeiro, a saber, é a corrente mais debatida quando se fala de “Cachê”. A segunda, em se tratando de qualquer metalinguagem cinematográfica. As duas últimas são minhas mas, novamente, quem quiser que se dirija à Casa França Brasil e opine por si.
Quero, antes de finalizar, completar que, ao Centro, vale uma passadinha no Paço Imperial (um dia eles ainda me contratam como RP deles!!) para ver “Rumos Itaú Cultural Artes Visuais”. A mostra, que pode ser vista até dia 6 de agosto, além de mapear a melhor safra da produção visual contemporânea (abrindo espaço para artistas pouco conhecidos), apresenta obras que são um desafio delicioso ao cérebro. Minha atenção especial vai para Aline Dias cujos trabalhos são performances-fotográficas que justapõe as imagens e os títulos em suas qualidades tanto literais e quanto metafóricas.
“O que acontece com meninas doces” (uma boneca de açúcar colocada em fogo baixo) é um dos trabalhos de Aline que ilustra minha linha de raciocínio ao combinar a delicadeza de uma possível avaliação superficial (não há crescimento sem dor) à complexidade de uma apreciação dos processos ritualísticos deste mesmo crescimento em cada sociedade.
Cabeça seccionada, deixo vocês neste exato ponto. Fica a recomendação, parte comigo a cisão que nenhuma especialidade médica me foi capaz de diagnosticar. Amarro, então, suas beiradas curtas e apascento meu entreaberto talho como quem só adormece ao som das canções ninar.

“E o inferno não é a tortura da dor! É a tortura de uma alegria.”
(Clarisse Lispector, A Paixão Segundo G.H.)

quarta-feira, junho 28, 2006

"Madrugada deve registrar frio recorde do ano" (O Globo, 28/06/2006, pg. 20)

Chove um pouco, mas logo pára.
E se, sem chuva? Aqui estou eu!
Venta forte e não carrega.
Mas se não venta? Serei eu!
Tanto faz...
tanto que chova, ainda que vente, mesmo que sol.
Se não molha e não refresca e não esquenta...
despanteismarei
.

domingo, junho 25, 2006

And even if you could, would you?

“Hey you,
Out there in the cold,
Getting lonely, getting old,
Can you feel me?

Hey you,
Standing in the aisle,
With itchy feet and fading smile,
Can you feel me?

Hey you,
Don't help them to bury the light.
Don't give in, without a fight.

Hey you,
Out there on your own,
Sitting naked by the phone,
Would you touch me?

Hey you,
With your ear against the wall,
Waiting for someone to call out,
Would you touch me?

Hey you,
Would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home.

But it was only, fantasy.
The wall was too high, as you can see.
No matter how he tried, he could not break free.
And the worms ate into his brain.
(...)”

Este é um momento de pausa. Talvez não para você que somente leu as palavras defronte à tela emergidas sem o embalo do vocal de Roger Waters. Talvez nem para mim, que há muito não as escutava, mas que ontem me fizeram em alfa ao soarem como trilha sonora de “A Lula e a Baleia”. Se antes, eu já acreditava na boa reputação deste filme, os acordes pouco depois do início já seriam suficientes para garantir ao longa pelo menos um elogio meu.
Direção, roteiro, fotografia, atuações: o filme é impecável mas, para ser sincera, eu não tenho a mínima intenção de discorrer sobre ele. “A Lula e a Baleia” ainda está em cartaz no cinema do Museu Histórico e quem quiser que vá lá tirar suas próprias conclusões. Além disso, como luz no fim do túnel, na Internet há sempre informações em quantidade e certamente em qualidade muito melhor.
E já que por hora me esquivo das palavras próprias deixo abaixo o restante da canção. À boca muda me corresponde hoje um amofinado coração.

“Hey you,
Out there on the road,
Always doing what you're told,
Can you help me?

Hey you,
Out there beyond the wall,
Breaking bottles in the hall,
Can you help me?

Hey you,
Don't tell me there's no hope at all.
Together we stand, divided we fall”

terça-feira, junho 20, 2006

Liberdade, companheira da primeira hora.
Pariu saudade, inimiga do intervalo teu.
Se faz frio, é no domínio que já não reclamas.
Se faz noite, é só relato do universo meu.

domingo, junho 18, 2006

O dia já descortinou e a radiola desperta "My Funny Valentine". Da janela, moldura-Corcovado, braços abertos sobre nós. Abro um meiolho mas, ai que preguiça!
Café e manteiga tostada no pão chegam no ar. A máquina bate a saída de praia e a água corrente do chuveiro regam as plantas do jardim. As flores perfumam as fumaças dos carros e as buzinas musicam a semana útil (?) que nasce em pleno verão. O relógio roda as horas que brisam a maresia dominical na nuca. Faróis decoram as vias, embebidas de uísque com gelo a go go.
O dias descortinou, Sinatra continua deserto na radiola mas, ai, que preguiça que dá!
O leito é minha tumba que me explusa para o viver.

quarta-feira, junho 14, 2006

Eu que não sirvo.
Eu que não caibo
Eu que não tenho lugar.
Eu, gritaria muda.
Eu, batucada surda.
Eu. Eu. Eu. Eu...
Eu??

sexta-feira, junho 02, 2006

Nostalgia dos tempos de faculdade? Escreva um texto sobre comunicação!!! (E eu que achei que tinha esquecido como se fazia para escrever!!) Rs

Homens e mulheres percebem que muitas das perguntas próprias dos cidadãos (...) recebem suas respostas mais através do consumo privado de bens e dos meios de comunicação de massa do que pelas regras abstratas da democracia ou pela participação coletiva em espaços públicos. (Canclini, 1995)[1]


Bastaria uma rápida olhada ao nosso redor para verificar que a frase acima é a mais pura expressão da realidade. Desde o momento em abre os olhos de manhã, até a hora em que se deita, o homem recebe os produtos de um complexo midiático que, muito além de cumprir com sua função de interatuação, revela-se como uma via de mão única, na qual transitam valores e conceitos que se mostrem adequados ao funcionamento da “máquina comunicativa”.
As novas tecnologias de informação, contrariando algumas pessimistas previsões que não atentavam para o futuro dos media, acabaram se proliferando a ponto de inexistir aspectos da esfera pública ou privada que não se enquadrem em um de seus domínios. E, se o início da comunicação se fez há cerca de 35.000 anos, foi somente nos últimos dois séculos que o termo vai perdendo seu significado essencial para definir o nascente – e agora já firmado – processo de midiatização.
Tais mudanças no decurso do sistema comunicacional ocorreram, principalmente, ao longo do século XX, período de firmação do capitalismo e, como conseqüência, da estruturação empresarial em torno do acesso à informação. A lógica do laissez-faire, se por um lado fomenta a competição, por outro permite a formação de organizações de caráter oligopólico que, associados aos avanços tecnológicos e ao advento da globalização, se tornaram transnacionais e hegemônicas.
Para tanto, foi necessária uma modificação no discurso adotado pela mídia: campos que antes apresentavam contornos muito bem delimitados, passaram, hoje, a coabitar. Antigamente, a retórica utilizada transformou a informação em um artigo passível de venda às massas, logo, estas deveriam ser capazes de diferenciar o produto adquirido, ou seja, a informação, da publicidade. O que acontece na atualidade é que os meios de comunicação se associaram aos produtores de bens de consumo e vendem “consumidores a seus anunciantes”[2]; em alguns casos a empresa jornalística chega a ter participação percentual nos lucros advindos da venda dos produtos anunciados. Não raro se encontra na Internet, links para sites de vendas de produtos entremeadas a notícias presentes em jornais de renome. É inegável o comprometimento da credibilidade mediante tais acordos que, com a convergência das mídias, vêm se tornando a cada dia mais comuns.
A difusão e influência alcançadas pelos veículos de comunicação se devem, também, a características que, atualmente, são a marca registrada do sistema. Sendo destinada a atender aos interesses dos anunciantes e tendo sua produção paga quase que totalmente por este, a informação é repassada ao consumidor, se não gratuita, com um valor monetário bem reduzido. Pode-se observar que em grande parte dos sites é possível navegar livremente, bastando que, para isso, o usuário faça a inscrição do seu e-mail para recebimento da newsletter, isto é, publicidade do próprio site e de seus associados, personalizada ao consumidor pelo uso do banco de dados.
Outra característica da informação é a velocidade: a notícia é veiculada em todas as partes do globo instantânea e simultaneamente. Não importa a localização geográfica do indivíduo; é quase certo que ele esteja inserido em uma das formas de recebimento de dados. Tal rapidez, longe de visar a uma participação mais abrangente da sociedade como um todo, veio atender às necessidades da economia mundial, possibilitando que as grandes corporações adotem medidas em curto prazo. Quanto às informações que chegam à população, estas são mais e mais semelhantes ao discurso panfletário, com manchetes impactantes, textos curtos, superficiais e permeados de achismos. O escasso tempo destinado à fabricação do conteúdo jornalístico vem fazendo da notícia um artefato subjetivo, sobre a qual pesam as impressões e sentimentos do jornalista.
Além – e, talvez, acima – destas particularidades relacionadas ao tema discutido, esteja a espetacularização da mídia. Os meios de comunicação mais do que servirem à disseminação de informação, fazem-na dedicada ao entretenimento. A indústria cultural é, hoje, o ramo mais importante de todo o complexo econômico, por ser o elemento que ditará as regras a serem seguidas pelos consumidores. O desenvolvimento de um sistema cultural forte – leia-se persuasivo – garante o condicionamento público aos ditames políticos, religiosos, sociais e, obviamente, econômicos.
Daí que as empresas midiáticas não estejam se restringindo as suas áreas de atuação específicas. As megafusões, ou seja, junção de empresas especializadas em funções distintas, estão se tornando parte da evolução natural do setor comunicacional. As razões para a unificação passam aquém e além do que seria considerado convencional. Em outras palavras, qualquer que seja o serviço oferecido por uma empresa associada à “máquina”, esta terá que se prestar ao espetáculo.
Foi durante e através do desenvolvimento da indústria cultural que os parâmetros vigentes na fórmula norte-americana do chamado “fazer comunicação”, foram assimilados pelo mundo. A estética, as técnicas, as abordagens, em suma, quase todos os padrões utilizados no globo atualmente, tiveram como princípio o modelo imposto pelos Estados Unidos. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, período este em que se efetivou a sua expansão ideológica, o molde da nação hegemônica transformou a comunicação em uma peça homogênea, um produto cultural insosso, engolido a seco pela horda de consumidores globais.
Contracorrente, a despeito do nome comunicação social, os movimentos comunicativos de base realmente social são exceções e tentam reverter o cenário presente. Seus alicerces também estão resguardados pelo lucro mas este se concilia aos objetivos fundamentais da difusão informacional. O que se passa nestes veículos de comunicação alternativos é que os princípios empresariais capitalistas não se sobrepõem e sim, se compactuam com o conceito e a prática da democracia.
A pluralidade de valores e idéias, mais do que uma utopia, procura, nos meios alternativos, ser parte da realidade. Esta é, inclusive, um dos pontos de defesa da Internet, espaço aberto à livre informação, direitos iguais de circulação de pensamentos opostos e culturas diferentes.
Com o crescimento do número de pessoas que possuem educação formal superior e, pressupõe-se, a elevação do nível sócio-cultural da população, opera-se um maior questionamento em relação ao papel a ser assumido pelo indivíduo no sistema de comunicação. A Internet possibilita que a sociedade atue ativamente no processo de produção e disseminação da informação, exigindo que se revejam as funções dos atores em cena. Não há como conter o florescimento de discursos heterogêneos na rede, provocando uma reavaliação da mídia como um todo.
Muito freqüentes nos últimos tempos, têm sido os debates e pesquisas acerca dos complexos informacionais. Estudam-se seu nascimento e desenvolvimento, discutem-se suas características e influências, questionam-se o seu caráter elitista e fragmentador. Buscam-se alternativas para a exclusão digital e para a melhoria da mídia. Percebe-se que a sociedade parece abandonar, aos poucos, o mundo das sombras para vislumbrar a verdade dos fatos.
Atitudes concretas provam que não é onírico, o sonho de uma outra comunicação. O site do “America Society of Magazine Editors” é um exemplo disso, deixando explícita sua posição:

“A ‘ASME’ criou linhas de direção para garantir clara a distinção existente entre publicidade e material editorial” e “em 1996, a ASME anunciou que seguiria padrões para independência editorial, um esforço para confirmar os mais altos no jornalismo de revista e para enfatizar a independência comercial e de pressões não jornalísticas”.[3]

Postura semelhante é adotada pelo site do programa televisivo “Observatório da Imprensa” que se assume colaborador na construção de uma mídia mais democrática:

“Entidade civil, não-governamental, não-corporativa e não-partidária, que pretende acompanhar, junto com outras organizações da sociedade civil, o desempenho da mídia brasileira. O ‘Observatório da Imprensa’ funcionará como um fórum permanente onde os usuários da mídia - leitores, ouvintes e telespectadores -, organizados em associações desvinculadas do estabelecimento jornalístico, poderão manifestar-se e participar ativamente num processo no qual, até agora, desempenhavam o papel de agentes passivos”.[4]

A maioria dos movimentos de resistência ao domínio dos meios de comunicação é encontrada na Internet, que se transformou em um pólo de convergência dos insatisfeitos. A população civil está conquistando, ao largo, o espaço virtual, o qual se mostrou, por um lado tridente de Netuno e, por outro calcanhar de Aquiles dos media. A nova configuração que rebenta é apenas o começo de uma outra história: do reinado das máquinas em um universo dirigido por homens.

[1] CANCLINI, N. G. , Consumidores e cidadãos, Rio de Janeiro, UFRJ, 1995, p.30.
[2] RAMONET, Ignácio, “Internet e sociedade em rede”, in Dênis de Moraes (org.), Por uma outra comunicação, Rio de Janeiro, Record, 2003, p.248.
[3] http://www.magazine.org/Editorial/ASME/
[4] http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/

segunda-feira, abril 24, 2006

Tem muita coisa que em mim insiste
e que só vive porque me vê morrer.
Cacos que não formam mosaicos.
Linhas que não se encontram em desenho.
Matizes que são não-cor.
Cerzidos retalhos que continuam pedaços,
fingem ser eu quando só mesma sou aquela que não sou.

terça-feira, abril 11, 2006

Para não dizer que não falei das flores... eis os espinhos

Morte não súbita
Um relato de pulsos cortados e mente entorpecida e vazia

O sangue goteja na bacia de metal colocada embaixo de seu pulso e forma uma melodia que ela começa a entender. Caem duas gotas, a terceira espera e cai também, sempre nesta seqüência, nestes mesmos acordes. De início, toca forte como uma orquestra que lentamente se transforma em um solo; “até nas coisas mais simples a natureza tem seu ritmo”, pensa.
Um filete vermelho escorre pelo seu braço formando afluentes. “Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu”, repete ela relembrando seus tempos de escola. De nada adiantara tantos estudos, afinal, os entorpecentes começam a fazer efeito; logo mais ela dormirá o mais profundo dos sonos e conhecerá por si própria a geografia do além.
Tenta se concentrar em algo solene, apropriado para o momento, no entanto, as idéias se embaralham em sua mente. Rabisca um bilhete para a mãe, tinha esquecido de explicar-lhe os motivos para sua atitude e lembra-se que estes não existem. Escreve então: Mãe, see you soon, expressão que freqüentemente escutava no cinema e que, apesar de inadequada para a ocasião, sempre quisera utilizar. Eis que estava diante de sua última oportunidade e agora era a hora.
...
Hora? Que horas? O relógio se afunda na parede ou foi ela que se moveu para trás? Uma fenda se abre bem no meio e uma luz começa a brilhar em um ponto distante. Sorri, pois, em sua viagem, ela decola numa overdose de rápidas imagens e sensações que não consegue explicar.
Aos poucos os remédios a anestesiam e ela começa a ficar pálida e seca. Os delírios tomam forma, desenrolam-se como cenas de filmes de outrem. Não há cortes; estes são um processo seletivo da memória, uma tentativa de apagar o inesquecível e, ao menos neste instante, ela só quer se lembrar.
Imaginou-se criança, em um parque de diversões, brincando no carrossel, descendo no tobogã, dirigindo o carrinho de bate-bate, comendo algodão-doce, pipoca, maçã do amor e supôs que não merecia tanta felicidade. Escarneceu a vida, riu diante da morte, bailou sobre a tênue linha que separa estes dois estados da existência humana e confirmou que deveria partir.
...
Viva? Viva? Viva! A cabeça vazia funcionava em blecautes. Apaga e acende, vai e volta, num pisca-pisca mental. Pisca-pisca? Pinheiro, papai-noel, presentes. Ai não, festa de Natal em família. Reviu a avó na cadeira de rodas, a prima que atacava o panetone, a ceia esmeramente preparada e o tapinha malicioso que o tio lhe dera no traseiro. Náuseas, vômito. “Foi só de brincadeira, ele é assim mesmo”, disseram todos. Então tá.
...
Acordou? A-cor-dou? Palavras minguantes. Lua minguante. Vida minguante. Agora falta pouco. A porta é entreaberta e ao ser levantada, ela se sente voar. “Me deixa aqui”, balbucia. Sobrevoa a escada de sua casa amparada pelos braços do pai. “Minha borboletinha”, ele a chamava quando pequena, “mostra pro papai tudo o que você pode alcançar”, e ela abria os braços, como se pudesse abraçar o mundo. E poderia.
Lágrimas, choro, a mãe segura a sua mão. “Põe eu de volta”, murmura, mas está sem força e o carro já se dirige para algum lugar.
...
“Vamos fazer o possível e o impossível”... Gritaria... “Pra UTI!”... Quarto branco... “Pega o soro!”... Tubos... “Conta até três e empurra!”... Tumulto... Pessoas.... “Estanca o sangue”. Anjos... “Lavagem estomacal!”. Os olhos se fecham, a cabeça pende para o lado, cansada, o corpo em espasmos. “Não tá adiantando!”. Já adiantou. Seu futuro agora é certo, ela vencera. “Não pára com a massagem cardíaca, continua a reanimação”. A luz brilhou mais forte. “Sentimos muito”.
...
Acabou-se a melodia, secaram-se os afluentes e, no fim, a borboleta tornou ao fúnebre casulo.

domingo, março 12, 2006

De bom grado eu daria o meu afã com as palavras
ao primeiro transeunte em que avultasse tal sofreguidão.
Amar o ingrato, augurar-lhe bom trato, de que me adianta?
Verbo maldito, és bem suplício e malgrada redenção.

sexta-feira, março 03, 2006

Música tema do meu carnaval. ;)

Quando Eu Te Encontrar
Biquini Cavadão

Eu já sei o que meus olhos vão querer
Quando eu te encontrar
Impedidos de te ver
Vão querer chorar
Um riso incontido
Perdido em algum lugar
Felicidade que transborda
Parece não querer parar
Não quer parar
Não vai parar

Eu já sei o que meus lábios vão querer
Quando eu te encontrar
Molhados de prazer
Vão querer beijar
E o que na vida não se cansa
De se apresentar
Por ser lugar comum
Deixamos de extravazar, de demonstrar

Nunca me disseram o que devo fazer
Quando a saudade acorda
A beleza que faz sofrer
Nunca me disseram como devo proceder
Chorar, beijar, te abraçar, é isso que quero fazer
É isso que quero dizer

Eu já sei o que meus braços vão querer
Quando eu te encontrar
Na forma de um "C"
Vão te abraçar
Um abraço apertado
Pra você não escapar
Se você foge me faz crer
Que o mundo pode acabar, vai acabar

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Despojo de ti, minhas palavras
e é no meu silêncio, que terás que me encontrar.
Peça a peça montada
metade só porque tua, desencaixada.
Quebra-cabeça infindável que desafia os cuidados teus.
Sou joguete volátil para que em tuas manobras, eterna.
Brinquedo indócil, para que preferida.
Do amor, o aporismo que em desmedida intentas adivinhar.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.
(Fernando Pessoa)

Que é falar da vida, se não palavrear a morte? Esta que é senhora de todos os medos e amante das almas sem lugar, que no galgo de seu corcel negro, ao pulso estende a espada e o convite: “Venha!”. Aquela que oscula a anima com a brisa que arrefece do corpo, o calor, e a quem o tabu coroou limite supremo de seu reinado.
Por quê? Mais hora, menos hora, não morro eu, não morres tu, acaso não morremos todos nós? Todo o começo, notem, é sempre o augúrio do fim, pois que os mesmos lábios que beijam o encontro, selam o adeus.
Meu desejo, a muitos arredio, é entender o lado de lá mais que temê-lo. Assim como o nascimento, o desembarque deste corpo terreno é apenas uma passagem em doses parcimoniosamente diluídas no cotidiano. Perdeu-se há muito, o meu sorriso pueril; ontem, a meninice adolescente; hoje, foram-se acanto alguns sonhos; amanhã... Existir é indubitavelmente morrer em parcelas.

Morte – Hora de delírio (Junqueira Freire)


Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

(...)

E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, — esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

(...)

Se você está lendo este post, isso quer dizer qu ainda está aguardando a mais indesejada das visitas. Apresento, então, as minhas razões para escolha de tão funesto mote. Don't rest in peace! (Para quemnão entender, é trocadilho mesmo!! Riam, por favor! ;D)
FILMES: "A Casa dos Espíritos", "Vinícius", "A Chave de Casa".
PEÇAS: "Caetana", "Saudade em Terras D'água".

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Chega uma hora em é preciso dizer “Bye!”. A cor do quarto te incomoda, o banheiro precisa de reforma, a sala você nem usa, a cozinha... A cozinha você até gosta mas, em breve, também começa a implicar com ela porque já é mais um argumento a contar em seu favor. Olhando bem, os pés de alumínio do fogão estriaram os azulejos brancos ao seu redor e o encanamento da pia gotilha o pó de café passado todas as manhãs.
A janela está emperrando e não se fecha completamente, deixando escapar uma luz que te impossibilita de dormir. “Vixi, é melhor ir embora antes que ela quebre de vez”, privação de sono é motivo de sobre para o adeus. O reboco do corredor parcialmente soltou, alguns portais racharam e parecem o chão agreste do sertão. O contrapiso soa oco ao toque, os rodapés esperam deitados sua colocação, enquanto em outros pontos do apartamento novos moradores ameaçam uma infestação.
Um passo afora e a umidade do ambiente que antes era característica da cidade, te deixa com uma sensação suja. Falando nisso, chove, ai como chove neste lugar! O tempo é nada mais que um dédalo de toró e abafamento, um calor, um mormaço, um sufoco, um asfixiamento sem fim! “Me assopra que eu estou sem ar!” Quem diria, voltei à infância quando minha mãe me ventava no rosto porque eu me sentia afogar.
Sair de noite? Que fastídio que dá! Mesmas caras abagaçadas, mesmos lugares descortinados e a invariável cadeia de imperativos: Cumprimenta!, Senta!, Come!, Conversa!, e Despede! “Tá sumida, heim?”. É, você anda pensando mesmo é em desaparecer, não é? Engole mais um imperativo? Tchau para vocês!
De repente, um dia você bate a porta; então percebe que esqueceu as chaves dentro e não tem como voltar. Ainda arrisca uma sacudidela lépida na maçaneta, mas já é tarde demais. Desce as escadas porque não gosta do elevador, acena para o porteiro.
“Não vai levar o jornal?”
“Não, hoje não. Depois...”, responde, apesar de saber que não vai ter um depois. Passa pelas grades de aço recém pintadas e na calçada já está decidindo que direção tomar. Um carro embica pela direita, mão certa da rua em que você mora e, por isso, você escolhe a esquerda. Vai, ser gauche na vida!, trilha que sempre seguiu, não obstante pouco perlustre aonde ela lidera.
Enfim, que importa isso agora? Nesta altura, você até dobrou a esquina e nem mais vê os arcos que compunham a fachada. Os jardins saíram de vista, o churrasquinho do bar da frente, as oficinas mecânicas e, enquanto partia, percebeu que na pracinha continuavam os velhos conhecidos habituées, que provavelmente nunca te aperceberam, mas os quais você cansou de ver em roda jogando conversa ao léu, sorrindo para a vida, para o mundo, para tudo o que eles ignoravam e faziam questão de não deslindar. Sábios? Pois sim! Em dez anos, eles continuarão rindo para a vida, ao passo que você o fará apenas para a alegria dos outros.
No final da estrada, outra bifurcação. Admita que em diante serão de forquejos os seus caminhos ora que se lançou ao conduto que confiou ter suas feições. Você nada fez de errado, adiante-se! Somente supôs estar nas curvas avante, a chave da felicidade, encerrada no bater daquela porta, há muitos passos atrás.
Você pensa no regresso mas, sem a chave, como irá entrar? À frente, o que te espera? Pensando bem, no meio é que não se chega a lugar nenhum. Arribemos, todos! Comemorar o futuro no presente e se alimentar do passado é viver nem um nem outro.
Continuo na minha casa muito engraçada que não tinha teto, não tinha nada, só enquanto não posso fisicamente me mudar. “Bye!”, digo, virtualmente, a este endereço. Quem quiser continuar a ler minhas bobagens que arrume as malas. A gente se encontra em qualquer Tati-hora e neste Tati-local!