sexta-feira, agosto 04, 2006

(...) desarmar à força é complicado porque pressupõe uma operação terrestre. E uma reação a uma invasão (...) é difícil porque a história recente mostrou que você não consegue erradicar totalmente uma guerrilha popular. Se morre um em combate, dez outros nascem no mesmo local. Além do que, estaria-se enfrentando uma cultura que acha que o sacrifício em combate é uma forma gloriosa de morrer. O medo da morte não é um fato dissuasivo." (Carlos Edeé em entrevista ao jornal O Globo, 04/08/2006, pg. 33)

Nascer e morrer; se possível, neste meio tempo, viver. Duas soberanas certezas virguladas por uma hipótese insondável já que, paradoxalmente, o efetivo viver só se completa com o findar dos dias de cada um. No sentido mais amplo que esta palavra possa abranger na contemporaneidade, ela se relaciona diretamente às teorias levantadas pelos filósofos contratualistas ao longo dos séculos passados, na qual somente com a existência de um pacto social a sobrevida estaria seguramente garantida.
No excerto citado acima da entrevista de Carlos Edeé, brasileiro filho de uma tradicional família libanesa, a quebra da aliança social é explícita, uma vez que lida-se hoje com forças atuantes multipolares. Não se pretende afirmar aqui que tenha ocorrido sempre na história uma coalizão pacífica de interesses, mas estes ao menos se mantinham arrimados pelo princípio contratual da preservação da própria vida.
Não sei ao certo em que ponto tal premissa deixou de ser a cerne do comportamento em sociedade; evidência é que deixou. As palavras de Edeé, aplicadas pelo mesmo à atual guerra entre o exército xiita Hezbollah e Israel, são uma análise evidente da conjuntura mundial em que o viver é o menor dos direitos naturais do ser humano a ser levado em consideração.
Por analogia, a sentença de Carlos Edeé (devidamente editada e omitindo, conforme indicam os parênteses, somente expressões de caráter qualitativo sem, entretanto, comprometer o significado geral da frase), caberia bem ao julgamento da evolução do crime organizado e da violência em território brasileiro, no que se refere às ações de determinados grupos civis constituídos.
A antropóloga Alba Zaluar, uma das mais conhecidas pesquisadoras da violência urbana no Brasil, já havia discorrido sobre a situação do crime organizado no país. Em seu livro “A Máquina e a Revolta”, além de um estudo aprofundado das relações sociais no tráfico de drogas brasileiro, Alba traçou um perfil da constituição não legitimada do poderio destes grupos, ancorados na troca constante de seus líderes. O repasse do comando, segundo a antropóloga, é determinado pelo poder de fogo e de coerção imposto pelo sucessor, ao qual acrescenta-se uma imagem romântica do bandido defensor das classes (sobrepujada nos últimos anos) e à pronta substituição do indivíduo abatido em campo pelo exército de reserva.
Assim, o contrato social tal qual ele foi teorizado precisa, nas sensatas palavras de Carlos Eideé, deixar de contar com o fator dissuasivo desde que, neste contexto, viver é somente o atalho percorrido entre os dois extremos. Enquanto este atalho não se fizer caminho, o viver será indefinidamente uma das pedras no trajeto que, em vez de construção, tem como destino o arremesso.

2 comentários:

Anônimo disse...

às vezes precisamos de alguém para alcançar a borda do copo e transbordá-la.

Anônimo disse...

ANTI-RÉQUIEM

Abster-me do mundo, eis o meu desejo!
Embandeirado bandeirante
por trilhas digressivas do poente.


"Até nunca!", o meu dizer
e seguir apenas.


Mas redundo
inconveniente e branco
como a luz do poste que invade
a noite
do quarto

e é impossivel desligar.