Para não dizer que não falei das flores... eis os espinhos
Morte não súbita
Um relato de pulsos cortados e mente entorpecida e vazia
O sangue goteja na bacia de metal colocada embaixo de seu pulso e forma uma melodia que ela começa a entender. Caem duas gotas, a terceira espera e cai também, sempre nesta seqüência, nestes mesmos acordes. De início, toca forte como uma orquestra que lentamente se transforma em um solo; “até nas coisas mais simples a natureza tem seu ritmo”, pensa.
Um filete vermelho escorre pelo seu braço formando afluentes. “Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu”, repete ela relembrando seus tempos de escola. De nada adiantara tantos estudos, afinal, os entorpecentes começam a fazer efeito; logo mais ela dormirá o mais profundo dos sonos e conhecerá por si própria a geografia do além.
Tenta se concentrar em algo solene, apropriado para o momento, no entanto, as idéias se embaralham em sua mente. Rabisca um bilhete para a mãe, tinha esquecido de explicar-lhe os motivos para sua atitude e lembra-se que estes não existem. Escreve então: Mãe, see you soon, expressão que freqüentemente escutava no cinema e que, apesar de inadequada para a ocasião, sempre quisera utilizar. Eis que estava diante de sua última oportunidade e agora era a hora.
...
Hora? Que horas? O relógio se afunda na parede ou foi ela que se moveu para trás? Uma fenda se abre bem no meio e uma luz começa a brilhar em um ponto distante. Sorri, pois, em sua viagem, ela decola numa overdose de rápidas imagens e sensações que não consegue explicar.
Aos poucos os remédios a anestesiam e ela começa a ficar pálida e seca. Os delírios tomam forma, desenrolam-se como cenas de filmes de outrem. Não há cortes; estes são um processo seletivo da memória, uma tentativa de apagar o inesquecível e, ao menos neste instante, ela só quer se lembrar.
Imaginou-se criança, em um parque de diversões, brincando no carrossel, descendo no tobogã, dirigindo o carrinho de bate-bate, comendo algodão-doce, pipoca, maçã do amor e supôs que não merecia tanta felicidade. Escarneceu a vida, riu diante da morte, bailou sobre a tênue linha que separa estes dois estados da existência humana e confirmou que deveria partir.
...
Viva? Viva? Viva! A cabeça vazia funcionava em blecautes. Apaga e acende, vai e volta, num pisca-pisca mental. Pisca-pisca? Pinheiro, papai-noel, presentes. Ai não, festa de Natal em família. Reviu a avó na cadeira de rodas, a prima que atacava o panetone, a ceia esmeramente preparada e o tapinha malicioso que o tio lhe dera no traseiro. Náuseas, vômito. “Foi só de brincadeira, ele é assim mesmo”, disseram todos. Então tá.
...
Acordou? A-cor-dou? Palavras minguantes. Lua minguante. Vida minguante. Agora falta pouco. A porta é entreaberta e ao ser levantada, ela se sente voar. “Me deixa aqui”, balbucia. Sobrevoa a escada de sua casa amparada pelos braços do pai. “Minha borboletinha”, ele a chamava quando pequena, “mostra pro papai tudo o que você pode alcançar”, e ela abria os braços, como se pudesse abraçar o mundo. E poderia.
Lágrimas, choro, a mãe segura a sua mão. “Põe eu de volta”, murmura, mas está sem força e o carro já se dirige para algum lugar.
...
“Vamos fazer o possível e o impossível”... Gritaria... “Pra UTI!”... Quarto branco... “Pega o soro!”... Tubos... “Conta até três e empurra!”... Tumulto... Pessoas.... “Estanca o sangue”. Anjos... “Lavagem estomacal!”. Os olhos se fecham, a cabeça pende para o lado, cansada, o corpo em espasmos. “Não tá adiantando!”. Já adiantou. Seu futuro agora é certo, ela vencera. “Não pára com a massagem cardíaca, continua a reanimação”. A luz brilhou mais forte. “Sentimos muito”.
...
Acabou-se a melodia, secaram-se os afluentes e, no fim, a borboleta tornou ao fúnebre casulo.
Um relato de pulsos cortados e mente entorpecida e vazia
O sangue goteja na bacia de metal colocada embaixo de seu pulso e forma uma melodia que ela começa a entender. Caem duas gotas, a terceira espera e cai também, sempre nesta seqüência, nestes mesmos acordes. De início, toca forte como uma orquestra que lentamente se transforma em um solo; “até nas coisas mais simples a natureza tem seu ritmo”, pensa.
Um filete vermelho escorre pelo seu braço formando afluentes. “Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu”, repete ela relembrando seus tempos de escola. De nada adiantara tantos estudos, afinal, os entorpecentes começam a fazer efeito; logo mais ela dormirá o mais profundo dos sonos e conhecerá por si própria a geografia do além.
Tenta se concentrar em algo solene, apropriado para o momento, no entanto, as idéias se embaralham em sua mente. Rabisca um bilhete para a mãe, tinha esquecido de explicar-lhe os motivos para sua atitude e lembra-se que estes não existem. Escreve então: Mãe, see you soon, expressão que freqüentemente escutava no cinema e que, apesar de inadequada para a ocasião, sempre quisera utilizar. Eis que estava diante de sua última oportunidade e agora era a hora.
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Hora? Que horas? O relógio se afunda na parede ou foi ela que se moveu para trás? Uma fenda se abre bem no meio e uma luz começa a brilhar em um ponto distante. Sorri, pois, em sua viagem, ela decola numa overdose de rápidas imagens e sensações que não consegue explicar.
Aos poucos os remédios a anestesiam e ela começa a ficar pálida e seca. Os delírios tomam forma, desenrolam-se como cenas de filmes de outrem. Não há cortes; estes são um processo seletivo da memória, uma tentativa de apagar o inesquecível e, ao menos neste instante, ela só quer se lembrar.
Imaginou-se criança, em um parque de diversões, brincando no carrossel, descendo no tobogã, dirigindo o carrinho de bate-bate, comendo algodão-doce, pipoca, maçã do amor e supôs que não merecia tanta felicidade. Escarneceu a vida, riu diante da morte, bailou sobre a tênue linha que separa estes dois estados da existência humana e confirmou que deveria partir.
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Viva? Viva? Viva! A cabeça vazia funcionava em blecautes. Apaga e acende, vai e volta, num pisca-pisca mental. Pisca-pisca? Pinheiro, papai-noel, presentes. Ai não, festa de Natal em família. Reviu a avó na cadeira de rodas, a prima que atacava o panetone, a ceia esmeramente preparada e o tapinha malicioso que o tio lhe dera no traseiro. Náuseas, vômito. “Foi só de brincadeira, ele é assim mesmo”, disseram todos. Então tá.
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Acordou? A-cor-dou? Palavras minguantes. Lua minguante. Vida minguante. Agora falta pouco. A porta é entreaberta e ao ser levantada, ela se sente voar. “Me deixa aqui”, balbucia. Sobrevoa a escada de sua casa amparada pelos braços do pai. “Minha borboletinha”, ele a chamava quando pequena, “mostra pro papai tudo o que você pode alcançar”, e ela abria os braços, como se pudesse abraçar o mundo. E poderia.
Lágrimas, choro, a mãe segura a sua mão. “Põe eu de volta”, murmura, mas está sem força e o carro já se dirige para algum lugar.
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“Vamos fazer o possível e o impossível”... Gritaria... “Pra UTI!”... Quarto branco... “Pega o soro!”... Tubos... “Conta até três e empurra!”... Tumulto... Pessoas.... “Estanca o sangue”. Anjos... “Lavagem estomacal!”. Os olhos se fecham, a cabeça pende para o lado, cansada, o corpo em espasmos. “Não tá adiantando!”. Já adiantou. Seu futuro agora é certo, ela vencera. “Não pára com a massagem cardíaca, continua a reanimação”. A luz brilhou mais forte. “Sentimos muito”.
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Acabou-se a melodia, secaram-se os afluentes e, no fim, a borboleta tornou ao fúnebre casulo.
Um comentário:
Bom, muito bom...
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