domingo, julho 30, 2006

Louras, morenas, ruivas e mulatas, brancas, bronzeadas, peles amendoadas. Casadas, solteiras, separadas, traídas e muito amadas. Virgens, prostitutas e também aquelas que só se entregam a alguns; feias, bonitas, gostosas e afins. Altonas, baixinhas, magras e bem gordinhas, sem nunca esquecer daquelas a quem só excede um pneuzinho a mais. Tranqüilas, nervosas, de TPM, sãs e dopadas. Sonsas, maliciosas, dissimuladas, quisera sinceras, bondosas e acomodadas. Manhosas, dóceis, pacíficas, guerreiras eternas de uma luta não declarada. Trabalhadoras, vagabundas, de pernas pro ar. Senhoras de casa, rainhas do lar, empreiteiras do dia desde que nascem; pousadas inabaláveis da noite porque cimentadas no sofrimento. Tanto mais são as mulheres, musas amiúde imortalizadas ao longo dos tempos e que, se colhem pétalas no resvalar das horas, é que de espinhos são os ponteiros de suas estações.
Sobre um olhar dedicado a elas (direi nós, já que crítica primeira da impessoalidade), posso citar duas excelentes e imperdíveis atrações no Rio de Janeiro que estão em cartaz. “Cora Coralina”, espetáculo teatral apresentado no CCJF (Centro Cultural de Justiça Federal), trata da vida da poetisa que empresta nome à peça mas vai muito, muito além. Ao biografar Cora, as três protagonistas falam do cotidiano, do deslocamento, do medo e da criação derivante daquele repertório navalhado na carne. Literalmente a arte que imita a vida quando, na verdade, é no decorrer da vida que se faz a arte.
“Di Cavalcanti”, nas recém-estreadas galerias da Caixa Cultural também trata do universo feminino ainda que se proponha, em princípio, a se desvincular dele. O artista, que ficou famoso por suas mulatas boazudas recebeu da curadoria (Denise Mattar, a mesma que produziu e curou a mostra “Mary Vieira - O Tempo do Movimento”) uma roupagem nova e extremamente interessante. Êpa lá, as negras aparecem sim, tanto quanto a mulher do peixeiro, a de semblante aristocrático, a menina, a moça de cabelos de mel, etc, etc e tal. A exposição inclui, ainda, uma área reservada especialmente às paisagens de Paquetá e da cidade do Rio de Janeiro, lugar em que Di Cavalcanti nasceu e enalteceu a vida toda.
Na paleta do pintor, curvilíneas na forma, paisagem e mulher se fundem em cor, graça e movimento. Se não se prendeu a uma nem à outra, é porque, às linhas sinuosas, Di Cavalcanti foi mais fiel e mesmo sem o feminino retratado, este se encontra em quaisquer de seus quadros, quando quer que um riscado ondulatório esteja presente. Nas vielas labirínticas, no samba dos carnavalescos mascarados, nos fragmentos dançarinos unidos pela gafieira, no oceano que vai e vém na praia, no festejo de São João e em outros temas abrangidos pelo pincel, o artista serpenteou o traçado como o melhor dos remelexos da mulata.
Contraponto ao requebrado de Di Cavalcanti, os olhos melancólicos de seus personagens fitam perdidos a área que escapa à moldura, impressão que, nas paisagens, ganha ares de nostalgia. Dentro do requadro parecem atentos ao nada, pensamento longínquo de quem até deseja, mas se descobre incapaz de se perder. Tal reflexão me lembrou alguns trechos que li recentemente e que abaixo transcrevo como desfecho, acaso como perdição.

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? (...)
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. (...) A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? Estarei mais livre?
Não. (...)
(...) havia aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa.”
Clarisse Lispector, A Paixão Segundo G.H.

Um comentário:

Anônimo disse...

adorei esse texto! aproveitei e copiei uma parte dele (onde tem o texto de Clarice lispector) p colocar no meu profile...
Bjinhos