segunda-feira, julho 03, 2006

Quer diversão? Faça doer! (Arde, mas...pimenta nos próprios olhos também é refresco)

Não sei se já contei, mas meu pai é um dos primeiros e únicos especialistas em Ortopedista e Traumatologista da minha cidade. Até aí tudo bem, não tivesse isso deturpado a minha noção de segurança pessoal e obediência aos limites não procedentes do meu próprio querer.
Lá em casa, alguns casos clínicos eram discutidos na mesa da cozinha, durante o almoço em família. Eu mordia uma coxa de galinha enquanto meu pai contava que acabara de amputar uma perna, cortava um bife escutando descritivas de uma incisão, mastigava o espaguete com um caso de verminose do pronto-socorro. Quando você convive com alguém que participa deste mundo, a desgraça alheia vira a piada do dia e confesso sem pudores que até hoje o humor negro é parte da minha diversão.
Entre a gente mesmo, quase nenhum destes infortúnios acontecia. Minha irmã quebrou um braço, minha mãe tem tendinite no pulso e eu, numa ocasião, virei o pé sete vezes em um mesmo mês. Ficou inchado, roxeou um pouco, mas como eu ouvia tanta história esdrúxula, até me senti um pouquinho mais normal (apesar de sete ser número de mentiroso, é a mais pura verdade!).
Além disso, para piorar a situação, nos meus primeiros seis anos de vida morei em uma casa de frente ao hospital. Qualquer coisa era só atravessar a rua e ser atendida, até porque minha mãe, esposa de médico, já era conhecida por toda a staff do lugar. Foi assim que quando eu bebi um vidro inteirinho de xampu Johnson e Johnson, menos de dez minutos depois já contava com uma equipe de pediatras e enfermeiras me observando soluçar bolhinhas de sabão pela boca enquanto preparavam a lavagem estomacal.
Hoje em dia, fiquem sossegados, eu não bebo mais xampu, nem mordo bolas de Natal (sim, eu mordi uma daquelas de vidro e tive câimbra no maxilar de tanto ficar com a boca aberta para que tirassem os caquinhos). Agora, quando tenho que estar meus limites, eu assim faço em campo muito menos físico e, gostaria eu, também menos perigoso.
“Cachê”, por exemplo, o já não tão novo filme de Michael Haneke, é um destes incidentes de percurso que fazem a gente feliz de chutar a tal da segurança pessoal. No filme, que é uma espécie de thriller protagonizado por Daniel Auteuil e Juliette Binoche, um casal recebe fitas embrulhadas em macabros desenhos infantis que têm como conteúdo extratos contínuos de suas vidas. Filmados aparente (mas não conclusivamente) como vingança por um filho de argelinos que quase fora adotado pelos pais do personagem de Auteuil, os vídeos vão aumentando gradativamente sua inserção na intimidade da família e abrem campo para discussões relacionadas a temas como os embates sociais (França X Argélia), o voyerismo, a interação entre espectador e mídia, a culpa, etc.
O primeiro, a saber, é a corrente mais debatida quando se fala de “Cachê”. A segunda, em se tratando de qualquer metalinguagem cinematográfica. As duas últimas são minhas mas, novamente, quem quiser que se dirija à Casa França Brasil e opine por si.
Quero, antes de finalizar, completar que, ao Centro, vale uma passadinha no Paço Imperial (um dia eles ainda me contratam como RP deles!!) para ver “Rumos Itaú Cultural Artes Visuais”. A mostra, que pode ser vista até dia 6 de agosto, além de mapear a melhor safra da produção visual contemporânea (abrindo espaço para artistas pouco conhecidos), apresenta obras que são um desafio delicioso ao cérebro. Minha atenção especial vai para Aline Dias cujos trabalhos são performances-fotográficas que justapõe as imagens e os títulos em suas qualidades tanto literais e quanto metafóricas.
“O que acontece com meninas doces” (uma boneca de açúcar colocada em fogo baixo) é um dos trabalhos de Aline que ilustra minha linha de raciocínio ao combinar a delicadeza de uma possível avaliação superficial (não há crescimento sem dor) à complexidade de uma apreciação dos processos ritualísticos deste mesmo crescimento em cada sociedade.
Cabeça seccionada, deixo vocês neste exato ponto. Fica a recomendação, parte comigo a cisão que nenhuma especialidade médica me foi capaz de diagnosticar. Amarro, então, suas beiradas curtas e apascento meu entreaberto talho como quem só adormece ao som das canções ninar.

“E o inferno não é a tortura da dor! É a tortura de uma alegria.”
(Clarisse Lispector, A Paixão Segundo G.H.)

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