sábado, novembro 17, 2007

Clemetine Wannabe ou I want Lacuna Inc. on my mind!

Memórias são como filmes desencontrados e quem já assistiu a um filme do David Lynch haverá de saber do que eu falo. A história é sempre mirabolante, um começo que não diz nada, um meio que bem poderia ser um fim e um desenlace (existe mesmo um desenlace?) que, por mais trágico que seja, guarda invariavelmente um sorriso feliz à face de quem o revive.

É sim, porque eu não conheço alguém que não veja o passado como um não-lugar grandioso. “Eram tão bons aqueles dias”, costumam dizer. E realmente eram! O decorrido tem por sorte o verniz esmaecido do tempo, uma camada aveludada do mais inube esquecimento que se possa imaginar. Assim como um bom filme, uma lembrança que se preze passa por um rigoroso processo de montagem na qual a elipse é o elemento chave a sua sobrevivência.

E por falar em memória, a edição brasileira da National Geographic deste mês tem como matéria principal... a Memória! Com o subtítulo “Lembrar e esquecer: estudos tentam explicar a essência de nossas vidas”, a reportagem se concentra nos dois extremos: os personagens reais AJ, 41 anos, que “lembra-se de quase todos os dias de sua vida a partir dos 11 anos de idade”, e EP, 85 anos, que “só se recorda de seu pensamento mais recente”.

Sinceridade? Se eu – e a torcida do Flamengo – pudéssemos escolher, seríamos, certamente, EP! Relata o repórter Joshua Foer que ele, EP, “acorda de manhã, toma café e volta para a cama para ouvir rádio. Mas, de volta à cama, nem sempre sabe se acabou de tomar café ou de acordar. É comum ele tomar café de novo e regressar à cama a fim de ouvir rádio outra vez. De vez em quando, faz isso três vezes.” (Meu Deus, esse homem tem estômago de avestruz!!!!!)

Continuando: “Faz caminhadas pelo bairro (...) Senta-se no quintal. Lê o jornal (...). Quem é Bush? Que Iraque? Computadores, como assim? (...) Depois de ler a previsão do tempo, ele rabisca bigodes nas fotos ou traça o contorno da colher que tem na mão. Quando vê o preço das casas no caderno de imóveis, invariavelmente proclama seu espanto. (...) pelo que ele saiba, a gasolina custa 25 centavos o litro e o homem nunca pisou na Lua”.

Gostaram? Pois eu adorei! Lembranças são prazerosas mas o caminho que lidera a este resultado é incrivelmente doloroso. Entre intervalos, making-offs, seleção de casting, de cenas deletadas, etc., há uma distância grande que não cabe nas elipses fixadas. Neste percurso, muita informação se perde – “Ei, isso aconteceu mesmo?” – e com ela, parte do fascínio que regula o factual. O encanto da realidade, adversa à recordação, não se concentra no seu caráter estético e sim, emocional. Tudo o que sentimos, por pior que seja, só faz parte da exatidão daquele momento específico e, depois de incrustado na memória, ganha uma roupagem tão bonita que mesmo a dor mais doída é um deleite recordar.

Um bom exemplo é “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, do francês Michel Gondry. Lançado em 2004, o filme conta a história de Joel (Jim Carrey) cuja mulher, Clementine (Kate Winslet), após uma crise na relação, vai ao consultório da Lacuna Inc. e o deleta de sua memória. Magoado, Joel resolve passar pelo mesmo procedimento; entretanto, durante o processo de apagamento, ele se arrepende e decide manter as recordações, a despeito de toda a dor vivida. A partir de então, começa a luta de Joel que, emboscado em sua própria mente, tenta impedir que os médicos façam Clementine sumir.

Sem querer ser ensaística, o filme é um argumento bem interessante sobre a fugacidade das relações humanas (quaisquer que sejam elas, desde amor até amizade). Prova disso é que somos apresentados à história de Joel e Clementine mais pela limpeza que este faz de suas lembranças que pelo presente (factual) vivido pelo casal. O apego às recordações é o que alinhava e desenrola a trama, e é neste - talvez único para Joel - universo que Clementine gravita. “Amar o amor”, como diz Roland Barthes em seu livro “Fragmentos de um Discurso Amoroso”: “e se chegar o dia em que eu tiver que renunciar ao outro, o luto violento que toma conta de mim então, é o luto do próprio Imaginário: era uma estrutura querida, e choro a perda do amor, não de fulano ou fulana”.

O que importa, portanto, é a edificação deste Imaginário sugerido por Barthes; já que a superficialidade toma frente das relações atuais – nas quais é sempre possível apagar e/ou substituir o outro (uma cara-metade inesquecível por noite, aquele amigo de coração que você conheceu há uma hora e com quem viveu momentos incríveis) – então o que resta é a plástica das memórias deixando exclusivamente o que convém à satisfação da tal “estrutura querida”. “É, vai ficar muito bonito quando eu contar”.

É por isso que decidi fundar o movimento Pró-EP ou I want Lacuna Inc. on my mind. Quero também fazer parte da horda que se alivia nas multidões, que não utiliza a memória como agente autoregulador (sim, eu apóio a castração do meu superego) mas que aceita as regras tal como elas se desencadeiam do lado de fora. "Ele é feliz o tempo todo. Muito feliz. Acho que é porque não sofre nenhuma tensão na vida", afirma a filha de EP.

Já dizia Fernando Pessoa, em seu "Livro do Desassossego", que "de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos". À guisa desta vitrine moderna estamos todos sempre sujeitos à substituição. Pratique a amnésia social e boas compras!

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