sexta-feira, novembro 30, 2007

o beijo nos lábios

manobrou um soco para arriar aquela cara insolente e desavergonhada
ponderou
um beijo cala essa matraca mais rápido
meteu as mãos por baixo da saia e vingou-se da forma que ela merecia:
despudoradamente.

terça-feira, novembro 27, 2007

me dá essa mão de nascer enredos
fábrica de brinquedos
das unhas de cada um dos seus dedos
à raiz dos meus cabelos

domingo, novembro 25, 2007

desnudei o pé tatuado e pedi
lê-me!
os olhos da pele na ponta da língua
e ele sempre preferiu o espaço entre as linhas

sábado, novembro 24, 2007

A Ring Tales é uma empresa norte-americana de animação que em 2007 conseguiu exclusividade para oferecer vida aos mais de 70 mil cartoons da revista New Yorker. Os fundadores, Jim Cox e Michael Fry, estão há mais de 20 anos na área de desenhos animados e entre suas atividades (individuais) estão colaboração no roteiro de “Oliver & Company”, da Disney, e co-produção de “Os Sem-Floresta” (Fry), da DreamWorks.

Este último longa foi, inclusive, inspirado na tirinha “Over the Edge” na qual Fry disseca a vida suburbana a partir do ponto de vista dos animais que já habitavam ali. Reencarnação, origem da humanidade e a pertinente indagação, “Is God a turtle or a raccoon?” são algumas das questões levantadas pela tartaruga Verne e pelo guaxinim RJ (é neste momento que a gente se pergunta: deus nos fez imagem e semelhança de quem? É um bom começo para que as verdades que julgamos absolutas comecem a sofrer abalos).

Para fins de cultura inútil (depois, por desencargo de consciência, utilizem o conteúdo num boteco qualquer e não se esqueçam de me oferecer um brinde), a parceria entre o mote das tirinhas de Fry e co-produção de Cox rendeu à DreamWorks cerca de 335 milhões de dólares. Inicialmente era um projeto da Fox mas, após mais de quatro anos sem avanços, mudou de estúdio e foi, afinal, parar nas telas de cinema.

Por este motivo, não podemos olhar para a Ring Tales como uma empresa de animação comum. Mais do que uma produtora com toda aquela impregnante conversation blasé “amor à arte em primeiro lugar”, ela se propõe uma solução inteligente, divertida e cativante de propaganda; em suma, o sonho de fidelização e inserção ao mundo do cliente.

“In our experience, viewers are happy because they get immediate access to the content. Advertisers are happy because the content has a great payoff. In fact, we’re seeing people watch the clips multiple times – it’s an advertiser’s dream come true.” Michael Fry


PS: É claro que depois de tanta fuzarca em torno da Ring Tales, eu não deixaria de colocar aqui o link para as animações. Encontrei os vídeos por um acaso, numa dessas fuçanças youtubísticas e que, quase sempre estéreis, às vezes me presenteiam com surpresas bastante agradáveis.

segunda-feira, novembro 19, 2007

despediu-se do espartilho vermelho
antes que chegasse ao amanhecer
a noite vinha sempre de pernas abertas.
à noite, também.

sábado, novembro 17, 2007

Clemetine Wannabe ou I want Lacuna Inc. on my mind!

Memórias são como filmes desencontrados e quem já assistiu a um filme do David Lynch haverá de saber do que eu falo. A história é sempre mirabolante, um começo que não diz nada, um meio que bem poderia ser um fim e um desenlace (existe mesmo um desenlace?) que, por mais trágico que seja, guarda invariavelmente um sorriso feliz à face de quem o revive.

É sim, porque eu não conheço alguém que não veja o passado como um não-lugar grandioso. “Eram tão bons aqueles dias”, costumam dizer. E realmente eram! O decorrido tem por sorte o verniz esmaecido do tempo, uma camada aveludada do mais inube esquecimento que se possa imaginar. Assim como um bom filme, uma lembrança que se preze passa por um rigoroso processo de montagem na qual a elipse é o elemento chave a sua sobrevivência.

E por falar em memória, a edição brasileira da National Geographic deste mês tem como matéria principal... a Memória! Com o subtítulo “Lembrar e esquecer: estudos tentam explicar a essência de nossas vidas”, a reportagem se concentra nos dois extremos: os personagens reais AJ, 41 anos, que “lembra-se de quase todos os dias de sua vida a partir dos 11 anos de idade”, e EP, 85 anos, que “só se recorda de seu pensamento mais recente”.

Sinceridade? Se eu – e a torcida do Flamengo – pudéssemos escolher, seríamos, certamente, EP! Relata o repórter Joshua Foer que ele, EP, “acorda de manhã, toma café e volta para a cama para ouvir rádio. Mas, de volta à cama, nem sempre sabe se acabou de tomar café ou de acordar. É comum ele tomar café de novo e regressar à cama a fim de ouvir rádio outra vez. De vez em quando, faz isso três vezes.” (Meu Deus, esse homem tem estômago de avestruz!!!!!)

Continuando: “Faz caminhadas pelo bairro (...) Senta-se no quintal. Lê o jornal (...). Quem é Bush? Que Iraque? Computadores, como assim? (...) Depois de ler a previsão do tempo, ele rabisca bigodes nas fotos ou traça o contorno da colher que tem na mão. Quando vê o preço das casas no caderno de imóveis, invariavelmente proclama seu espanto. (...) pelo que ele saiba, a gasolina custa 25 centavos o litro e o homem nunca pisou na Lua”.

Gostaram? Pois eu adorei! Lembranças são prazerosas mas o caminho que lidera a este resultado é incrivelmente doloroso. Entre intervalos, making-offs, seleção de casting, de cenas deletadas, etc., há uma distância grande que não cabe nas elipses fixadas. Neste percurso, muita informação se perde – “Ei, isso aconteceu mesmo?” – e com ela, parte do fascínio que regula o factual. O encanto da realidade, adversa à recordação, não se concentra no seu caráter estético e sim, emocional. Tudo o que sentimos, por pior que seja, só faz parte da exatidão daquele momento específico e, depois de incrustado na memória, ganha uma roupagem tão bonita que mesmo a dor mais doída é um deleite recordar.

Um bom exemplo é “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, do francês Michel Gondry. Lançado em 2004, o filme conta a história de Joel (Jim Carrey) cuja mulher, Clementine (Kate Winslet), após uma crise na relação, vai ao consultório da Lacuna Inc. e o deleta de sua memória. Magoado, Joel resolve passar pelo mesmo procedimento; entretanto, durante o processo de apagamento, ele se arrepende e decide manter as recordações, a despeito de toda a dor vivida. A partir de então, começa a luta de Joel que, emboscado em sua própria mente, tenta impedir que os médicos façam Clementine sumir.

Sem querer ser ensaística, o filme é um argumento bem interessante sobre a fugacidade das relações humanas (quaisquer que sejam elas, desde amor até amizade). Prova disso é que somos apresentados à história de Joel e Clementine mais pela limpeza que este faz de suas lembranças que pelo presente (factual) vivido pelo casal. O apego às recordações é o que alinhava e desenrola a trama, e é neste - talvez único para Joel - universo que Clementine gravita. “Amar o amor”, como diz Roland Barthes em seu livro “Fragmentos de um Discurso Amoroso”: “e se chegar o dia em que eu tiver que renunciar ao outro, o luto violento que toma conta de mim então, é o luto do próprio Imaginário: era uma estrutura querida, e choro a perda do amor, não de fulano ou fulana”.

O que importa, portanto, é a edificação deste Imaginário sugerido por Barthes; já que a superficialidade toma frente das relações atuais – nas quais é sempre possível apagar e/ou substituir o outro (uma cara-metade inesquecível por noite, aquele amigo de coração que você conheceu há uma hora e com quem viveu momentos incríveis) – então o que resta é a plástica das memórias deixando exclusivamente o que convém à satisfação da tal “estrutura querida”. “É, vai ficar muito bonito quando eu contar”.

É por isso que decidi fundar o movimento Pró-EP ou I want Lacuna Inc. on my mind. Quero também fazer parte da horda que se alivia nas multidões, que não utiliza a memória como agente autoregulador (sim, eu apóio a castração do meu superego) mas que aceita as regras tal como elas se desencadeiam do lado de fora. "Ele é feliz o tempo todo. Muito feliz. Acho que é porque não sofre nenhuma tensão na vida", afirma a filha de EP.

Já dizia Fernando Pessoa, em seu "Livro do Desassossego", que "de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos". À guisa desta vitrine moderna estamos todos sempre sujeitos à substituição. Pratique a amnésia social e boas compras!

E já que toda memória é, antes de tudo, um discurso, complemento com uma citação que, muito embora tenha sido aplicada originalmente ao enlace amoroso, bem serve às relações gerais estabelecidas durante a vida de todas as pessoas:
"(...) o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação."
Roland Barthes - Introdução de "Fragmentos de um Discurso Amoroso"

terça-feira, novembro 13, 2007

Pensamento neocartesiano

Tenho orkut, logo existo.


PS: Tanto tempo sem postar e eu me saio com uma dessas. Realmente, eu já não faço mais postagens como antigamente. Liguei o f*-c.