Catus (et canis) erectus
no escuro
todos os gatos são pardos.
alguns tem o faro apurado dos cachorros
outros, não mais que o rabo de fora.
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todos os gatos são pardos.
alguns tem o faro apurado dos cachorros
outros, não mais que o rabo de fora.
Postado por
TatiResinentti
às
2:45 AM
Um comentário:
Depois de muita delonga, ora venho continuar o papo. Muito da demora foi pelas atribulações todas que se impõem e que delas não nos podemos livrar; um pouco, por outro lado, foi a dificuldade de continuar o pensamento por aqui, pois, de algum jeito, ele já está dado.
Chegamos a alguns consensos, mas, felizmente, não poderemos deixar que dêem as mãos outras idéias e posicionamentos.
Você lançou uma série de perguntas que eu, sem dúvidas, não sou a melhor pessoa para responder. Entendo-as, de algum jeito, todas. Mas sinto-me incapaz de dar conta delas. Pelo menos fora de um texto que desenvolva e pense esses problemas (o que poderia ser uma tese de doutorado etc.). Assim, acho que o que eu diga será bastante limitador, pois será, primeiro, como qualquer questão sobre a obra de arte, menor do que ela, e, segundo, será menor do que muitas questões já desenvolvidas - menores como tais - acerca ou sobre dilemas colocados pelas obras de arte.
O que posso dizer, brevemente, é no que acredito, a partir do embate com algumas obras e a partir, também, da minha leitura da leitura crítica de pensadores ou artistas outros.
Vamos por partes, pergunta a pergunta, de maneira breve e sincera. Para começar, não entendi bem a questão do "fugir à individualidade", mesmo com a explicação posterior.
Uma coisa que penso, aprendi com o Walter Benjamin, é verdade, mas, enfim, o que ele diz e no que acredito, também como escritor e pensador - na medida do possível e não -, é isto: "a arte propriamente dita pressupõe o caráter físico e espiritual do homem; porém, não existe nenhuma obra de arte que trate de atrair sua atenção, porque nenhum poema está dedicado ao leitor, nenhum quadro a quem o contempla, nem sinfonia alguma a quem a escuta".
Nesse sentido, acredito que os talebans fizeram aquilo porque foram designados para tanto; mas não podemos, de jeito algum, determinar se eles, os mesmos que destruiram as estátuas, tinham capacidade ou não de "fruí-las", pois uma coisa não exclui a outra.
Podemos, também, esquecer esse ponto facilmente se confiarmos nas palavras de Benjamin, na condição da "obra de arte feita o indivíduo" ou "obra que espere a fruição do indivíduo".
Eu não sei o que faz a essência da obra de arte. Certamente não é, como você sabe e disse, alguma unanimidade, composta, é claro, por seres humanos. Isso não. O Adorno fala que o que faz a obra de arte perpetuar é a própria obra de arte; e que, daí, as obras de arte teriam uma posição como a dos deuses em seu panteão. E que, sim, elas brigariam entre si, pois cada obra nasce por dizer que está ali, nela, toda verdade e tudo, todo início e fim, e que, então, não precisamos olhar mais para nenhuma outra, senão para ela. Isso faz sentido.
Uma obra incompreendida por todo mundo continua sendo arte, continua sim, até porque nenhuma obra se está por compreender nos termos e na maneira que sabemos hoje. Na verdade, mais do que ser compreendida, uma obra de arte se põe a ensinar, se põe a mostrar o seu conhecimento. E o leitor aí entra a ler uma escultura ou a um quadro, e , finalmente, alienando-se a ela/ele, aprender a andar ali, com aqueles passos que só se aprendem e apreendem pela e na leitura.
O Fernando Pessoa também diz algo bastante interessante sobre essa coisa do "avaliar a obra" ou "avaliar o artista". Na verdade, no trecho que vou colar aqui, ele diz especificamente sobre o poeta. Ele não dá uma resposta, mas constata que, decerto, não são as pessoas, os indivíduos que dirão quem é ou não poeta, ou quem é o grande poeta:
"De todos os lados ouvimos o clamor de que o nosso tempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todas as modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer, quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer se ele já não apareceu? O público ledor vê nos jornais notícias das obras daqueles homens cuja influência e camaradagens tornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez que fossem aceitos pela multidão. O grande poeta pode já ter aparecido; sua obra teria sido noticiada em poucas palavras de vient-de-paraître em algum sumário bibliográfico de um jornal de crítica."
Enfim, sabemos que a obra de arte instaura o seu âmbito artístico, e que funda sua tradição e os seus descendentes. Cada obra reorganiza nossa noção de tradição e por isso também independe de nós. O passado de um Ricardo Reis pode estar em Horácio, e o seu futuro num poeta grego anterior a Reis, como o Kavafis. Existe um livro, que versa a esse respeito, que se chama "Kant depois de Duchamp". Já com esse nome percebemos a questão que acabei de tocar, sem muito me deter sobre.
Finalmente, como no começo disse, não sou bom para responder a suas perguntas, mas acho que elas procedem e incitam diálogos (vide o que escrevi de retorno), que poderiam ser levados ainda a outras conseqüências, mais definitivas que essas janelas de blogs (risos). Respondi sinceramente a todas, como prometido, e também de maneira breve, como ficou estabelecido desde o início.
Esteja à vontade para continuar.
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