Cena em três cortes
1.
Ela dizia essas coisas como uma criança ingênua que durante uma brincadeira afirma "Mamãe, eu vou afogar essa boneca" e afunda o corpo inerte numa bacia de água límpida. Pronunciava cada palavra se deliciando com o espanto que elas me causavam e que se tornava explícito nos olhos arregalados, nos lábios entreabertos, no peso da respiração. Ela mordia a ponta da boca - malícia! - mas a expressão era tão serena que eu não ousava reputar-lhe condenação.
2.
"Bate! Bate que ela te obecede. Porque mulher é assim, funciona com incentivo. É dinheiro, trepada ou porrada, você é quem escolhe o que te agrada mais." [ri]
"Que isso, Elias, tá pensando que eu sou o quê? Essa mulher é de família, de família tá entendendo? Num é uma dessas que andam soltas por aí não, essa é pra casar. Só não obedece." [enfia amendoim na boca]
"Meu amigo, mulher de família quem faz é o homem. Se ela é santa ou puta, boa cozinheira, dona de casa, cama, mesa e banho, quem vai decidir?... é você! Depois num diz que eu não te avisei. [pausa] [fala devagar] Bate! [arreganha os dentes] Ôoo, garçom, a loura gelada é pra agora ou eu vou ter que me virar com a branquinha na cama?"
3.
"Merda de sapato!" Atirou-os em um canto qualquer e sentiu com alívio o suspiro dos pés. "Ah, se fosse eu..." Acendeu um incenso, jogou-se nas almofadas da sala e engatinhou as pernas pela parede até o vestido embrenhar-se pelo meio das coxas. "Eu teria socado" - ela sabia que sim - "tinha me descido a mão na cara". Esticou-se como um gato, contorcida de prazer. [sorri, mordendo a unha do indicador] "Ainda existem homens muito cheios de pudores..."
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