Sobre a quase ausência de uma memória musical
Seis badalas. Ou quase isso. Depois uma música que se eleva e toma conta da cidade, o som percorrendo o calçamento hexagonal da pequena Areado em que meu avô nasceu, viveu e morreu. O camarada descia a cavalo com o gado – eia, boi! – juntando as vacas aos bezerros que descansavam no curral.
“Boi não dorme em pé, vô?”
“Dormi.”
“Então, por que você não deixa elas no pasto logo de uma vez?”
“Tem qui dá di mamá prus garroti.”
“Ah...”
Meu avô Sabino falava enrolado e só quem havia crescido ao seu lado entendia o carregado mineirês do seu linguajar. Não raro as pessoas me fitavam com cara de “ahã?”, pedindo auxílio no andamento da conversa. Ele que, apesar de bom de prosa, não era de muitas palavras, dava de ombros. Era do tipo que só perdia tempo se realmente julgasse que valia a pena gastar.
A sede de sua fazenda se assentava dentro do perímetro urbano, a menos de dois quilômetros de distância da praça principal. Era uma dessas típicas casas de campo que começavam apenas com um quarto para o casal, um para o primogênito e uma sala, com a cozinha e a fossa sanitária do lado de fora. À medida que os filhos iam chegando e a vida financeira melhorando, novos cômodos eram anexados à construção e, ao final, somavam ao todo sete quartos, duas salas, uma copa, dois banheiros e duas cozinhas, mais a varanda e a área de trabalho doméstico da minha avó.
Acima da sede, havia um grande pomar, com mexerica, melancia, jabuticabeira, pé de nona, de goiaba, cajueiro e até um coqueiro que os netos nunca deixaram em paz. Coco em Minas era fruta rara e a disputa, acirrada. Felizmente, não posso negar que, neste ponto, sempre estive em grande vantagem. Fui de meu avô a neta favorita, a que aniversariava junto, a que passeava no velho Willis pela cidade, a que o fazia descascar um saco de laranjas para comer só a tampinha e a que adorava vê-lo encher a espingarda de pólvora para atirar contra os corvos que atacavam o milho da plantação. Logo, não importava quando ou como eu derrubasse os cocos: ele ainda pegava o facão e os abria para mim, sem resmungar.
A horta ficava adjacente ao pomar e era cortada por um “córguinho” que passava na “bica”. Este pequeno fluxo de água corrente fora desviado pelo meu avô do curso natural de uma nascente que servia tanto ao abastecimento da casa quanto à irrigação da lavoura. A “bica” se encontrava constantemente coberta por lodo mas bastava que eu e minhas irmãs chegássemos para que minha tia Regina tomasse da vassoura e esfregasse cada pedra existente, já ciente de que nos banharíamos ali. A água gelada era domada à força de muita correria atrás das canoas e jangadas que a gente fabricava com folhas de parreira e de maracujá, e que fazíamos questão de levar ao mais alto ponto permitido pelo olhar materno só para vê-las deslizando muito além do nosso alcance. Às vezes, jogávamos também formigas, borboletas, lagartas e patinhos, até o dia em que eu lancei alguns pintinhos, tomei um sermão e, afinal, descobri que filhote de galinha não sabe nadar.
Na parte de baixo da fazenda, existia ainda a área de secagem de grãos, seguida pela moenda, o curral, o chiqueiro, o ribeirão e a floresta de eucaliptos. Sob o quente da tarde ou mesmo nas fortes chuvas de verão, tinham sempre dois caboclos mexendo o café, arroz ou feijão deixado no pátio, seja para enxugar a colheita ao sol ou protegê-la do açoite torrencial das águas. Contam que um desses peões perdeu os dedos da mão no moedor e eu fiquei imaginando o sangue e o suor caindo por sobre o silo que alimentava o gado que depois me alimentava. Rápida como minha imaginação era o esquecimento deste episódio, tão logo me era apresentada uma caneca de leite espumante tirado na hora. A vida (sem hipocrisia), por mais infeliz que seja, é assim.
Particularmente, um dos meus espaços favoritos era a varanda que semi-rodeava a casa. Nela cresciam, em xaxins pendurados nos portais, algumas samambaias choronas e, espalhados pelo chão, vasos com antúrios. No banco de madeira que encarava a estrada de terra, muitas tardes de domingo ali eu passei durante a minha infância, sentada ao lado do meu avô. Ele ficava, no mais das vezes, mudo, dando tapas nos besouros que zanzavam sobre a minha cabeça. “É tudo bichim amigu. Faiz már pra ninguéim” e os pegava pela casca dura, colocando o dedo entre as patas do inseto. “Tá veno. Eles senti inté cóiciga”, dizia, sorrindo e rindo do meu medo infundado.
Por todo o tempo que permanecíamos sentados, meus pés ficavam balançando no banco e somente mais tarde tocaram o chão. Eu deixava os dois flutuando – para frente, para trás, para frente, para trás – enquanto meu avô falava. Contava do tempo em que ele vinha a Alfenas “di cavalo”, comentava a trajetória da penca de parentes moradores de Areado, depois pegava a caixa de fotografias e me mostrava, um a um, os rostos que eu desconhecia e ainda desconheço.
Uma vaca mugia, a tarde ia caindo, em pouco, meu vô Sabino e a fazenda restavam em silêncio. Começava a cantoria dos grilos e, do outro lado do morro, após a missa, a tal música no fundo. Na cidade, que da varanda eu tinha vista parcial, alguém gostava de fato de Carlos Gardel. Fumando Espero, Volver, Nel dia que me quieras, Mano a Mano e outras tantas canções trouxeram consigo entardeceres calados ao lado do meu avô.
Logo, minha mãe me avisava que era hora de ir embora.
“A bença, vô.”
“Deus te abençoe” – e me apertava a mão dentro das suas.
Enquanto o carro partia e até que sumíssemos estrada afora meus avós paternos abanavam os braços, acenando em longa despedida. No final de 2003, primeiro minha vó Maria morreu e a casa começou a ficar vazia. O fogão a lenha nunca mais foi aceso (não que tivesse visto) e não tinha mais biscoitão e bolacha de maizena esperando por nós no café da tarde. Aliás, nem havia mais aquele aroma de café moído sempre na hora, nem as rotineiras e solitárias retrucações que ela mantinha consigo mesma (a vó Maria tinha problemas mentais e passou muitas vezes por clínicas psiquiátricas, que antigamente só existiam em BH. A mais remota lembrança que tenho dela é justamente com uma faixa de cabelo branco cortando de testa à nuca o negro dos fios, resultado dos antigos tratamentos a base de choques elétricos que os pacientes recebiam nessas instituições. Mas isso são outros quinhentos).
Mais ou menos um ano depois, foi-se também o meu avô. No fim de semana de sua morte, eu e minha mãe estivemos no hospital por diversas horas para que ele não ficasse sozinho em um ambiente não familiar. Ele estava um pouco pálido mas aparentemente bem, só respirava com dificuldade (principalmente porque eu o fazia tirar o inalador do rosto várias vezes para que respondesse às minhas perguntas). Depois dormia e acordava “Cêis ainda tão aí? Podeí qui cêis devi di tê o qui fazê, quarqué coisa eu falu cum as infermera”. Como eu, ele era arredio ao excesso de cuidados.
Tomei o ônibus de volta ao Rio no domingo; na mesma noite o vô Sabino faleceu. Minha mãe me ligou chorando mas eu mesma derramei poucas lágrimas. Melhor assim: meu avô sempre me fez sorrir em vida e eu não iria desapontá-lo em seu momento final.
O jipe e as fotografias, assim como a sede da fazenda, ficaram com meus tios na partilha dos bens, fato que eu custei a aceitar. O Willis estava em pedaços e a ninguém nunca interessou. O mesmo posso dizer das fotografias; aquelas vidas roubadas do tempo sempre foram minhas ainda que eu não soubesse a quem pertenciam. Meu pai escolheu um pedaço de terra onde ele nasceu e no qual eu nunca pus meus pés mas que ele alega ser fértil e de bom valor comercial. A mim, pouco importa.
Fui em Areado de bicicleta no feriado que passou. Depois da morte do meu avô, não voltei à casa da fazenda e, dessa vez, apenas admirei-a de longe mas não existia mais nada que me pertencesse lá. Sentei, então, na pracinha que rodeia a igreja e fiquei esperando Gardel. A tarde findou e sua voz não deu o ar da graça depois da missa areadense. Milongas podem parecer cantigas tristes mas é a quietude a verdadeira dor de uma canção.
Mi Noche Triste, Adiós para Siempre! Nostalgias (...) Si las copas traen consuelo, aqui estoy con mi desvelo para ahogarlo de una vez.
“Boi não dorme em pé, vô?”
“Dormi.”
“Então, por que você não deixa elas no pasto logo de uma vez?”
“Tem qui dá di mamá prus garroti.”
“Ah...”
Meu avô Sabino falava enrolado e só quem havia crescido ao seu lado entendia o carregado mineirês do seu linguajar. Não raro as pessoas me fitavam com cara de “ahã?”, pedindo auxílio no andamento da conversa. Ele que, apesar de bom de prosa, não era de muitas palavras, dava de ombros. Era do tipo que só perdia tempo se realmente julgasse que valia a pena gastar.
A sede de sua fazenda se assentava dentro do perímetro urbano, a menos de dois quilômetros de distância da praça principal. Era uma dessas típicas casas de campo que começavam apenas com um quarto para o casal, um para o primogênito e uma sala, com a cozinha e a fossa sanitária do lado de fora. À medida que os filhos iam chegando e a vida financeira melhorando, novos cômodos eram anexados à construção e, ao final, somavam ao todo sete quartos, duas salas, uma copa, dois banheiros e duas cozinhas, mais a varanda e a área de trabalho doméstico da minha avó.
Acima da sede, havia um grande pomar, com mexerica, melancia, jabuticabeira, pé de nona, de goiaba, cajueiro e até um coqueiro que os netos nunca deixaram em paz. Coco em Minas era fruta rara e a disputa, acirrada. Felizmente, não posso negar que, neste ponto, sempre estive em grande vantagem. Fui de meu avô a neta favorita, a que aniversariava junto, a que passeava no velho Willis pela cidade, a que o fazia descascar um saco de laranjas para comer só a tampinha e a que adorava vê-lo encher a espingarda de pólvora para atirar contra os corvos que atacavam o milho da plantação. Logo, não importava quando ou como eu derrubasse os cocos: ele ainda pegava o facão e os abria para mim, sem resmungar.
A horta ficava adjacente ao pomar e era cortada por um “córguinho” que passava na “bica”. Este pequeno fluxo de água corrente fora desviado pelo meu avô do curso natural de uma nascente que servia tanto ao abastecimento da casa quanto à irrigação da lavoura. A “bica” se encontrava constantemente coberta por lodo mas bastava que eu e minhas irmãs chegássemos para que minha tia Regina tomasse da vassoura e esfregasse cada pedra existente, já ciente de que nos banharíamos ali. A água gelada era domada à força de muita correria atrás das canoas e jangadas que a gente fabricava com folhas de parreira e de maracujá, e que fazíamos questão de levar ao mais alto ponto permitido pelo olhar materno só para vê-las deslizando muito além do nosso alcance. Às vezes, jogávamos também formigas, borboletas, lagartas e patinhos, até o dia em que eu lancei alguns pintinhos, tomei um sermão e, afinal, descobri que filhote de galinha não sabe nadar.
Na parte de baixo da fazenda, existia ainda a área de secagem de grãos, seguida pela moenda, o curral, o chiqueiro, o ribeirão e a floresta de eucaliptos. Sob o quente da tarde ou mesmo nas fortes chuvas de verão, tinham sempre dois caboclos mexendo o café, arroz ou feijão deixado no pátio, seja para enxugar a colheita ao sol ou protegê-la do açoite torrencial das águas. Contam que um desses peões perdeu os dedos da mão no moedor e eu fiquei imaginando o sangue e o suor caindo por sobre o silo que alimentava o gado que depois me alimentava. Rápida como minha imaginação era o esquecimento deste episódio, tão logo me era apresentada uma caneca de leite espumante tirado na hora. A vida (sem hipocrisia), por mais infeliz que seja, é assim.
Particularmente, um dos meus espaços favoritos era a varanda que semi-rodeava a casa. Nela cresciam, em xaxins pendurados nos portais, algumas samambaias choronas e, espalhados pelo chão, vasos com antúrios. No banco de madeira que encarava a estrada de terra, muitas tardes de domingo ali eu passei durante a minha infância, sentada ao lado do meu avô. Ele ficava, no mais das vezes, mudo, dando tapas nos besouros que zanzavam sobre a minha cabeça. “É tudo bichim amigu. Faiz már pra ninguéim” e os pegava pela casca dura, colocando o dedo entre as patas do inseto. “Tá veno. Eles senti inté cóiciga”, dizia, sorrindo e rindo do meu medo infundado.
Por todo o tempo que permanecíamos sentados, meus pés ficavam balançando no banco e somente mais tarde tocaram o chão. Eu deixava os dois flutuando – para frente, para trás, para frente, para trás – enquanto meu avô falava. Contava do tempo em que ele vinha a Alfenas “di cavalo”, comentava a trajetória da penca de parentes moradores de Areado, depois pegava a caixa de fotografias e me mostrava, um a um, os rostos que eu desconhecia e ainda desconheço.
Uma vaca mugia, a tarde ia caindo, em pouco, meu vô Sabino e a fazenda restavam em silêncio. Começava a cantoria dos grilos e, do outro lado do morro, após a missa, a tal música no fundo. Na cidade, que da varanda eu tinha vista parcial, alguém gostava de fato de Carlos Gardel. Fumando Espero, Volver, Nel dia que me quieras, Mano a Mano e outras tantas canções trouxeram consigo entardeceres calados ao lado do meu avô.
Logo, minha mãe me avisava que era hora de ir embora.
“A bença, vô.”
“Deus te abençoe” – e me apertava a mão dentro das suas.
Enquanto o carro partia e até que sumíssemos estrada afora meus avós paternos abanavam os braços, acenando em longa despedida. No final de 2003, primeiro minha vó Maria morreu e a casa começou a ficar vazia. O fogão a lenha nunca mais foi aceso (não que tivesse visto) e não tinha mais biscoitão e bolacha de maizena esperando por nós no café da tarde. Aliás, nem havia mais aquele aroma de café moído sempre na hora, nem as rotineiras e solitárias retrucações que ela mantinha consigo mesma (a vó Maria tinha problemas mentais e passou muitas vezes por clínicas psiquiátricas, que antigamente só existiam em BH. A mais remota lembrança que tenho dela é justamente com uma faixa de cabelo branco cortando de testa à nuca o negro dos fios, resultado dos antigos tratamentos a base de choques elétricos que os pacientes recebiam nessas instituições. Mas isso são outros quinhentos).
Mais ou menos um ano depois, foi-se também o meu avô. No fim de semana de sua morte, eu e minha mãe estivemos no hospital por diversas horas para que ele não ficasse sozinho em um ambiente não familiar. Ele estava um pouco pálido mas aparentemente bem, só respirava com dificuldade (principalmente porque eu o fazia tirar o inalador do rosto várias vezes para que respondesse às minhas perguntas). Depois dormia e acordava “Cêis ainda tão aí? Podeí qui cêis devi di tê o qui fazê, quarqué coisa eu falu cum as infermera”. Como eu, ele era arredio ao excesso de cuidados.
Tomei o ônibus de volta ao Rio no domingo; na mesma noite o vô Sabino faleceu. Minha mãe me ligou chorando mas eu mesma derramei poucas lágrimas. Melhor assim: meu avô sempre me fez sorrir em vida e eu não iria desapontá-lo em seu momento final.
O jipe e as fotografias, assim como a sede da fazenda, ficaram com meus tios na partilha dos bens, fato que eu custei a aceitar. O Willis estava em pedaços e a ninguém nunca interessou. O mesmo posso dizer das fotografias; aquelas vidas roubadas do tempo sempre foram minhas ainda que eu não soubesse a quem pertenciam. Meu pai escolheu um pedaço de terra onde ele nasceu e no qual eu nunca pus meus pés mas que ele alega ser fértil e de bom valor comercial. A mim, pouco importa.
Fui em Areado de bicicleta no feriado que passou. Depois da morte do meu avô, não voltei à casa da fazenda e, dessa vez, apenas admirei-a de longe mas não existia mais nada que me pertencesse lá. Sentei, então, na pracinha que rodeia a igreja e fiquei esperando Gardel. A tarde findou e sua voz não deu o ar da graça depois da missa areadense. Milongas podem parecer cantigas tristes mas é a quietude a verdadeira dor de uma canção.
Mi Noche Triste, Adiós para Siempre! Nostalgias (...) Si las copas traen consuelo, aqui estoy con mi desvelo para ahogarlo de una vez.
5 comentários:
mulher!!!!!
vc é uma contista, quem sabe uma romancista, de mão cheia!!!!
beijo grande no cérebro!
Gracias, poetamaismaisquemais! Sabe bem o quanto sua opinião é importante!!
Meu limite é ser autobiográfica demais. Um dia, como vc, talvez serei outra em mim. ;)
Bjks!!!
sei bem a falta que faz esse carinho de avo. Agora o que seria um pé de nona?
um beijo
Nossa, menino, quem é vivo sempre aparece! rs
Bom, a nona é a fruta do conde aqui no sul de Minas. Não sei se no resto do estado ela é chamada assim, já escutei um pessoal capixaba chamando ela de pinha.
Bjks!
Não tenho certeza mas acho que o correto seria anona... Mas o pessoal só diz nona mesmo e já que a voz do povo é a voz de Deus...
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