Disse-me que morava em uma fazenda junto da irmã e do cunhado. Eram, no todo, dezesseis. Filhos de pai, oito de mãe. Quando foram crescendo, a mão paterna conduziu cada um à estrada. “Não tem arado pra todos” – foi o que ouviu. São só vinte e cinco mil pés de café, não muito além de cem sacas por estação.
Este ano, contou-me, uma infestação de cigarra atacou a lavoura e devastou a plantação. “O vidro de veneno custa seiscentos reais e não couraça nem mesmo mil pés”. Há duas colheitas, quase que se foi para Campinas, “tentar a sorte em uma capital”. Mas a irmã e a mãe pediram que ficasse a ajudar o cunhado com o cafezal.
“Essa noite, vou para a cavalgada de Nossa Senhora, conduzir a imagem da santa desde Fama até a igreja da Aparecida. Aquela perto do cemitério”, explicou-me. “É uma comitiva de cavalos que sai às três horas da manhã e apeia às sete, quase na hora da Missa dos Romeiros”.
Apontou-me Serrania, logo ali naquelas casas brancas, “tá vendo?”. Falou que seguiria pela esquerda e que eu seguisse reto. Perto dos eucaliptos, caso fosse pela direita, estaria na rodovia de retorno. À esquerda, na cidade indicada.
Meio sem jeito estendeu-me a mão. “Vai com Deus, dona”. Aceitei de bom grado aquele aperto desconhecido. “Boa sorte, Tadeu”, depois o vi tocar pela estrada de terra sobre uma bicicleta que ele possuía há bem mais de quinze anos. “Careca, mas nunca furou um pneu”, gabara-se mais cedo.
E foi-se embora assim, com sua marcha devagar naquele caminho de terra batida. Deixou-me como recomendação o cuidado com as costeletas do caminho, “já vi muita gente pendida nesses buracos de chuva”.
Semi-homônimo de santo das causas difíceis e desesperadas, parecia me instruir do que se sucederia pela frente. Em meu caminho de volta, tombei numa destas valas e capotei. Desobediente à providência divina, luxei o cotovelo e logrei a penitência de carregar no braço direito cerca de três quilos de gesso por um mês. Flagelo que não de fé, me foi impugnado pelo excesso de desatenção.
Este ano, contou-me, uma infestação de cigarra atacou a lavoura e devastou a plantação. “O vidro de veneno custa seiscentos reais e não couraça nem mesmo mil pés”. Há duas colheitas, quase que se foi para Campinas, “tentar a sorte em uma capital”. Mas a irmã e a mãe pediram que ficasse a ajudar o cunhado com o cafezal.
“Essa noite, vou para a cavalgada de Nossa Senhora, conduzir a imagem da santa desde Fama até a igreja da Aparecida. Aquela perto do cemitério”, explicou-me. “É uma comitiva de cavalos que sai às três horas da manhã e apeia às sete, quase na hora da Missa dos Romeiros”.
Apontou-me Serrania, logo ali naquelas casas brancas, “tá vendo?”. Falou que seguiria pela esquerda e que eu seguisse reto. Perto dos eucaliptos, caso fosse pela direita, estaria na rodovia de retorno. À esquerda, na cidade indicada.
Meio sem jeito estendeu-me a mão. “Vai com Deus, dona”. Aceitei de bom grado aquele aperto desconhecido. “Boa sorte, Tadeu”, depois o vi tocar pela estrada de terra sobre uma bicicleta que ele possuía há bem mais de quinze anos. “Careca, mas nunca furou um pneu”, gabara-se mais cedo.
E foi-se embora assim, com sua marcha devagar naquele caminho de terra batida. Deixou-me como recomendação o cuidado com as costeletas do caminho, “já vi muita gente pendida nesses buracos de chuva”.
Semi-homônimo de santo das causas difíceis e desesperadas, parecia me instruir do que se sucederia pela frente. Em meu caminho de volta, tombei numa destas valas e capotei. Desobediente à providência divina, luxei o cotovelo e logrei a penitência de carregar no braço direito cerca de três quilos de gesso por um mês. Flagelo que não de fé, me foi impugnado pelo excesso de desatenção.
Um comentário:
bianchina, Paulo Plínio Abreu parlava di te nelle parole di sua poesia.
Diante de tua beleza as coisas se apagaram.
És o golfo onde escondi meu barco doente
e a cripta onde deporei meus mortos.
Ave e orvalho, mulher e cornamusa.
Somos irmãos no mito
e eis que te refaço
com a seiva de meu ser.
De ti recolho este secreto espanto,
este secreto mel,
Em ti refaço a viagem não feita, o riso não rido e o amor não amado.
És a beleza mesma adiada no tempo
E nos outros a necessidade de sua perfeição.
ti voglio bene assai!
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