quinta-feira, agosto 31, 2006

Quem te leva?
Quem te lesa?
Quem te lega?

Quem te nega?
Quem te pega?
Quem te cega?
Quente cela
      Fria tela
              sela
              ser.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Rua do Catete - 18:51h

Um homem me aborda delicadamente e diz:
- Aceita a palavra de Deus?
Respondo, sem pensar:
- Tudo bem, desde que Ele seja rápido.

Moral da história: isso é motivo de piada?

Muuuuito a matutar...

quarta-feira, agosto 23, 2006

Um pomar sem frutas frescas
ao alcance das mãos
A avó grita
Que é das laranjas para compotas?
Laranjas? Como?
Os pomares de hoje só nos trazem
ocres, cinzas e marrons.

terça-feira, agosto 22, 2006

Amparo:
nem reparo
tampouco n'alma

sábado, agosto 19, 2006

Travessia transversa
atravessa
o avesso
e regressa ao mesmo
limiar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Jaz aqui a presidência
do Clube das Compulsivas
Roedoras de Unha
Devoradoras Noturnas
Individualistas por Opção.
Aspirantes à Suicida
Viciadas em Cafeína
e com tendências masoquistas.
Vagas abertas à subscrição.

domingo, agosto 13, 2006

Nem adianta me gritar de perto
Autopiedade fez juramento com o amor!
se um quê de dor não sente
quem mais se apraz na renúncia do ser
à conquista que o motivou.
Mas pode me assoprar de longe
das virtudes egoístas do bem amar
Asteia o troféu da posse, pois se desiste
prazer existe em se flagelar.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Autocredora sim: devo e não nego.
Empresto-me a taxas altíssimas
indexadas todas as manhãs.
Antes mesmo de dormir
assino-me uma promissória para sonhar
parceladamente em 6X s/ juros.
Um dia, ainda me cobro em praça pública.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Na cidade deserta de si, não ande
pelas ruas principais.
Tome o atalho
vazio
Siga as vielas
sombrias
À direita tem um cabaré lotado.
Deixe esmolas na porta.
Sê desabrigo se não podes ser cais.

domingo, agosto 06, 2006

Duo-versões

Sois
Sóis
que apago como a guimba de um cigarro

ou

Soul:
Sou sim
Sol não

sexta-feira, agosto 04, 2006

(...) desarmar à força é complicado porque pressupõe uma operação terrestre. E uma reação a uma invasão (...) é difícil porque a história recente mostrou que você não consegue erradicar totalmente uma guerrilha popular. Se morre um em combate, dez outros nascem no mesmo local. Além do que, estaria-se enfrentando uma cultura que acha que o sacrifício em combate é uma forma gloriosa de morrer. O medo da morte não é um fato dissuasivo." (Carlos Edeé em entrevista ao jornal O Globo, 04/08/2006, pg. 33)

Nascer e morrer; se possível, neste meio tempo, viver. Duas soberanas certezas virguladas por uma hipótese insondável já que, paradoxalmente, o efetivo viver só se completa com o findar dos dias de cada um. No sentido mais amplo que esta palavra possa abranger na contemporaneidade, ela se relaciona diretamente às teorias levantadas pelos filósofos contratualistas ao longo dos séculos passados, na qual somente com a existência de um pacto social a sobrevida estaria seguramente garantida.
No excerto citado acima da entrevista de Carlos Edeé, brasileiro filho de uma tradicional família libanesa, a quebra da aliança social é explícita, uma vez que lida-se hoje com forças atuantes multipolares. Não se pretende afirmar aqui que tenha ocorrido sempre na história uma coalizão pacífica de interesses, mas estes ao menos se mantinham arrimados pelo princípio contratual da preservação da própria vida.
Não sei ao certo em que ponto tal premissa deixou de ser a cerne do comportamento em sociedade; evidência é que deixou. As palavras de Edeé, aplicadas pelo mesmo à atual guerra entre o exército xiita Hezbollah e Israel, são uma análise evidente da conjuntura mundial em que o viver é o menor dos direitos naturais do ser humano a ser levado em consideração.
Por analogia, a sentença de Carlos Edeé (devidamente editada e omitindo, conforme indicam os parênteses, somente expressões de caráter qualitativo sem, entretanto, comprometer o significado geral da frase), caberia bem ao julgamento da evolução do crime organizado e da violência em território brasileiro, no que se refere às ações de determinados grupos civis constituídos.
A antropóloga Alba Zaluar, uma das mais conhecidas pesquisadoras da violência urbana no Brasil, já havia discorrido sobre a situação do crime organizado no país. Em seu livro “A Máquina e a Revolta”, além de um estudo aprofundado das relações sociais no tráfico de drogas brasileiro, Alba traçou um perfil da constituição não legitimada do poderio destes grupos, ancorados na troca constante de seus líderes. O repasse do comando, segundo a antropóloga, é determinado pelo poder de fogo e de coerção imposto pelo sucessor, ao qual acrescenta-se uma imagem romântica do bandido defensor das classes (sobrepujada nos últimos anos) e à pronta substituição do indivíduo abatido em campo pelo exército de reserva.
Assim, o contrato social tal qual ele foi teorizado precisa, nas sensatas palavras de Carlos Eideé, deixar de contar com o fator dissuasivo desde que, neste contexto, viver é somente o atalho percorrido entre os dois extremos. Enquanto este atalho não se fizer caminho, o viver será indefinidamente uma das pedras no trajeto que, em vez de construção, tem como destino o arremesso.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Busco refúgio naquele que nem é o meu lugar.
Diz que carência tem espaço e ela é do tamanho exato dos seus braços.
E, ai!... Como é dorida!
Minha cabeça no seu peito amparada foi um delongado beijo de adeus.
Tardio, mas não falhou o encontro à fronte.
Ecos tão palpáveis quanto a sua voz.
Resquício que é destemperança minha...