quinta-feira, janeiro 26, 2006

Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.
(Fernando Pessoa)

Que é falar da vida, se não palavrear a morte? Esta que é senhora de todos os medos e amante das almas sem lugar, que no galgo de seu corcel negro, ao pulso estende a espada e o convite: “Venha!”. Aquela que oscula a anima com a brisa que arrefece do corpo, o calor, e a quem o tabu coroou limite supremo de seu reinado.
Por quê? Mais hora, menos hora, não morro eu, não morres tu, acaso não morremos todos nós? Todo o começo, notem, é sempre o augúrio do fim, pois que os mesmos lábios que beijam o encontro, selam o adeus.
Meu desejo, a muitos arredio, é entender o lado de lá mais que temê-lo. Assim como o nascimento, o desembarque deste corpo terreno é apenas uma passagem em doses parcimoniosamente diluídas no cotidiano. Perdeu-se há muito, o meu sorriso pueril; ontem, a meninice adolescente; hoje, foram-se acanto alguns sonhos; amanhã... Existir é indubitavelmente morrer em parcelas.

Morte – Hora de delírio (Junqueira Freire)


Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

(...)

E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, — esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

(...)

Se você está lendo este post, isso quer dizer qu ainda está aguardando a mais indesejada das visitas. Apresento, então, as minhas razões para escolha de tão funesto mote. Don't rest in peace! (Para quemnão entender, é trocadilho mesmo!! Riam, por favor! ;D)
FILMES: "A Casa dos Espíritos", "Vinícius", "A Chave de Casa".
PEÇAS: "Caetana", "Saudade em Terras D'água".

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Chega uma hora em é preciso dizer “Bye!”. A cor do quarto te incomoda, o banheiro precisa de reforma, a sala você nem usa, a cozinha... A cozinha você até gosta mas, em breve, também começa a implicar com ela porque já é mais um argumento a contar em seu favor. Olhando bem, os pés de alumínio do fogão estriaram os azulejos brancos ao seu redor e o encanamento da pia gotilha o pó de café passado todas as manhãs.
A janela está emperrando e não se fecha completamente, deixando escapar uma luz que te impossibilita de dormir. “Vixi, é melhor ir embora antes que ela quebre de vez”, privação de sono é motivo de sobre para o adeus. O reboco do corredor parcialmente soltou, alguns portais racharam e parecem o chão agreste do sertão. O contrapiso soa oco ao toque, os rodapés esperam deitados sua colocação, enquanto em outros pontos do apartamento novos moradores ameaçam uma infestação.
Um passo afora e a umidade do ambiente que antes era característica da cidade, te deixa com uma sensação suja. Falando nisso, chove, ai como chove neste lugar! O tempo é nada mais que um dédalo de toró e abafamento, um calor, um mormaço, um sufoco, um asfixiamento sem fim! “Me assopra que eu estou sem ar!” Quem diria, voltei à infância quando minha mãe me ventava no rosto porque eu me sentia afogar.
Sair de noite? Que fastídio que dá! Mesmas caras abagaçadas, mesmos lugares descortinados e a invariável cadeia de imperativos: Cumprimenta!, Senta!, Come!, Conversa!, e Despede! “Tá sumida, heim?”. É, você anda pensando mesmo é em desaparecer, não é? Engole mais um imperativo? Tchau para vocês!
De repente, um dia você bate a porta; então percebe que esqueceu as chaves dentro e não tem como voltar. Ainda arrisca uma sacudidela lépida na maçaneta, mas já é tarde demais. Desce as escadas porque não gosta do elevador, acena para o porteiro.
“Não vai levar o jornal?”
“Não, hoje não. Depois...”, responde, apesar de saber que não vai ter um depois. Passa pelas grades de aço recém pintadas e na calçada já está decidindo que direção tomar. Um carro embica pela direita, mão certa da rua em que você mora e, por isso, você escolhe a esquerda. Vai, ser gauche na vida!, trilha que sempre seguiu, não obstante pouco perlustre aonde ela lidera.
Enfim, que importa isso agora? Nesta altura, você até dobrou a esquina e nem mais vê os arcos que compunham a fachada. Os jardins saíram de vista, o churrasquinho do bar da frente, as oficinas mecânicas e, enquanto partia, percebeu que na pracinha continuavam os velhos conhecidos habituées, que provavelmente nunca te aperceberam, mas os quais você cansou de ver em roda jogando conversa ao léu, sorrindo para a vida, para o mundo, para tudo o que eles ignoravam e faziam questão de não deslindar. Sábios? Pois sim! Em dez anos, eles continuarão rindo para a vida, ao passo que você o fará apenas para a alegria dos outros.
No final da estrada, outra bifurcação. Admita que em diante serão de forquejos os seus caminhos ora que se lançou ao conduto que confiou ter suas feições. Você nada fez de errado, adiante-se! Somente supôs estar nas curvas avante, a chave da felicidade, encerrada no bater daquela porta, há muitos passos atrás.
Você pensa no regresso mas, sem a chave, como irá entrar? À frente, o que te espera? Pensando bem, no meio é que não se chega a lugar nenhum. Arribemos, todos! Comemorar o futuro no presente e se alimentar do passado é viver nem um nem outro.
Continuo na minha casa muito engraçada que não tinha teto, não tinha nada, só enquanto não posso fisicamente me mudar. “Bye!”, digo, virtualmente, a este endereço. Quem quiser continuar a ler minhas bobagens que arrume as malas. A gente se encontra em qualquer Tati-hora e neste Tati-local!